2 de abril de 2016

A Revolução será Negra ou não será!

No dia 07/03, a juventude do PSTU finalizou o Ciclo de Debates sobre Classismo e Combate às Opressões, iniciado no 17/02 com um encontro sobre Feminismo e Classismo, continuado no dia 24/02 tratando da questão LGBTs e Classismo.

Se sua cor, seu corpo fossem diferentes, você moraria no mesmo lugar? As pessoas na rua te olhariam da mesma maneira? Seu trabalho seria o mesmo? Com esses e outros questionamentos começou o terceiro e último momento do ciclo de debates. Este, sob a temática de raça e classe, contou com o público de 16 pessoas.
Dentre os principais temas discutidos, esteve o mito da democracia racial; apropriação e banalização cultural; representação de negras e negros na mídia; maneiras que o Estado brasileiro e norte-americano escolhem para abordar a questão étnico-racial; dentre outros.

Como o racismo se manifesta?
Cada Estado trata o racismo contra pessoas negras de maneira diferente. Comparemos os EUA e o Brasil, por exemplo. O primeiro separa a população por raças, enquanto no segundo as raças são “misturadas” e há a propaganda de um país plural. Hoje, a população negra no Brasil corresponde à 53% do total, somando autodeclarados pretos (7%) e pardos (46%). Nos Estados Unidos, 12%. Por que é mais fácil afirmar que uma pessoa é negra fora de um País que se apropria tanto da cultura africana do que dentro dele? Por que negros não estampam as capas de revistas, não aparecem em materiais de propaganda de produtos de beleza, não são protagonistas de telenovelas, filmes ou séries, mas são os rostos de empregadas domésticas, do carnaval e das periferias?
Enquanto no Brasil, misturamos as raças, nos Estados Unidos percebe-se com nitidez a separação. No Estado norte-americano a classe dominante não via a quantidade de negros e negras no País como principal fator prejudicial para a economia e o desenvolvimento dos EUA. Mas no Brasil, pelos negros ultrapassarem os brancos em quantidade, foram iniciadas várias políticas para o embranquecimento do Estado. Essas medidas (e o reflexo delas no cotidiano) contribuíram para que afro-descendentes não se sentissem confortáveis com ao serem definidos com a palavra “negro” - tirando o sentimento de pertencer a um lugar ou comunidade, desfazendo os quilombos.
O padrão de beleza é o da classe dominante: branca! Ter a tonalidade de pele clara significa ter uma maior possibilidade de acensão social, principalmente quando não se nasce em uma família privilegiada. Essa questão - que nasce no processo de embranquecimento do Brasil - vem dividindo a população afro-brasileira ao longo dos anos em “mulatos”, “pardos”, “marrons”, “pretos” e um longo etc. Na prática, considera-se que quanto mais clara for a tonalidade da pele, menos incapaz, cachaceiro, malandro, preguiçoso, criminoso será! Ou seja, menos negro.
Dentre várias maneiras de controlar as manifestações culturais de afro descendentes, a demonização era uma. A música, culinária, dança, luta, acessórios, nada serve para a sociedade brasileira que seja distante da cultura europeia. Isso não elimina os elementos culturais africanos dos negros, mas fortalece uma cultura de resistência que, hoje, é banalizada através da apropriação desses elementos pela indústria cultural.
É um choque quando um afro-descendente que possui um lugar na classe dominante ou na indústria midiática afirma-se negra/o, a atriz Taís Araújo e a jornalista Maju Coutinho são exemplos recentes. Quando existem denúncias aos ataques que seus irmãos e irmãs sofrem, o fuzuê é ainda maior. Por exemplo, o vídeo clipe para a música “Formation” da Beyoncé, sua apresentação no Super Bowl 50 e a apresentação de Kendrick Lamar na Premiação do Grammy 2016.
O processo de escravidão no Brasil é marcado por revoltas e batalhas por liberdade. Essas marcas começam a ser “apagadas” através de processos de miscigenação forçada, da marginalização social, do massacre contra a população negra pelas mãos do Estado entre outros. Mas uma das principais borrachas da história do povo afro-brasileiro é o mito da democracia racial. O fato de afirmarmos que as oportunidades são iguais para todas e todos no Brasil. Ao fazer isso, facilita-se a apropriação cultural; ignora-se que 67% das pessoas que moram nas favelas são negras; que os homicídios contra jovens negros aumentou 23,4%, enquanto contra jovens brancos diminuiu 33%; que 61% da população carcerária brasileira é preta; que 21% da população negra no Brasil é analfabeta.
Entrar e permanecer nas instituições de ensino (principalmente superior) é um desafio para negros e negras. Para além de sofrer com o racismo institucional, fica-se sujeito a violência moral, psicológica e física tanto de funcionários como de alunos. Tais casos, quando ocorrem, não são tratados com a devida relevância para serem levados em diante pelas instituições. E poucas são as pessoas e entidades que posicionam-se contra o/a agressor/a. O caso de uma companheira militante do PSTU Curitiba e sua amiga que foram insultadas por uma de suas professoras, surpreendentemente não contou com o posicionamento da maioria de alunos/as e coletivos que defendem as causas raciais dentro da instituição.
A verdade é que, apesar de quase 128 anos de abolição da escravidão, a casa grande e a senzala ainda existem. E, para os poucos afro-descendentes que conseguem atuar na casa grande, pedimos para que não se calem ou atuem com medidas prejudiciais aos seus irmãos e irmãs que ainda vivem na senzala.

Negros que escravizam
E vendem negros na África
Não são meus irmãos.
Negros senhores na América
A serviço do capital
Não são meus irmãos.
Negros opressores
Em qualquer parte do mundo
Não são meus irmãos.
Só os negros oprimidos
Escravizados
Em luta por liberdade
São meus irmãos.
Para estes tenho um poema
Grande como o Nilo


“Negros” de Solano Trindade


E hoje em dia?
As atuais medidas do governo como a redução da maioridade penal, os cortes de investimentos nas áreas sociais (principalmente saúde e educação), a intensificação da terceirização, o aumento da inflação, as demissões em massa (700 mil até o fim de 2015), adotar a medida provisória 665/2014 (que dificulta o acesso ao seguro-desemprego), o aumento na tarifa do transporte (dificultando o acesso e mobilidade da população residente em bairros periféricos) e várias outras, demonstram que o Partido dos Trabalhadores anda de mãos dadas aos setores da burguesia e que os interesses da classe trabalhadora não são prioridades.
Hoje, a traição do PT através de suas medidas neoliberais em seus governos e a direita defendendo grandes empresas e bancos cujo interesse primordial é o lucro, conseguimos ver a representação de um capataz e da casa-grande, respectivamente. Mas quem é a senzala? A classe trabalhadora. Que, além de ser majoritariamente negra, é composta por pessoas oprimidas. Seja pelo gênero, orientação sexual, etnia, religião.
Para que haja a libertação da classe trabalhadora, deve haver um processo de identificação e de união entre os setores oprimidos, deve-se dizer “não” às medidas que atacam trabalhadores, deve-se ter coragem de dizer “Fora Dilma, Cunha, Temer, Aécio e esse Congresso”. A libertação virá quando botarmos para fora todos eles e construirmos um governo dos trabalhadores

É necessário um governo construídos pelos trabalhadores, fora todo eles! Eleições gerais já! Porque a revolução será negra ou não será!



Um comentário:

  1. Muito excelente! A revolução será negra!!! E vamos lutando.

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