15 de março de 2016

Resgatar o espírito de Stonewall!

"Nós sofremos agressões físicas e verbais nas ruas e espaços públicos, muitos de nós são expulsos de casa ainda muito jovens, passamos por discriminações homofóbicas e transfóbicas ao adentrar o mercado de trabalho, o que nos empurra para empregos precarizados como serviços de telemarketing, e no caso de mulheres trans, a prostituição. Nossos espaços de sociabilidade são constantemente vigiados pela polícia, a aniquilação simbólica e social de nossa existência nos deixa mais suscetíveis a problemas psíquicos [PET2] como depressão e ansiedade, entre outras questões."

Juventude - PSTU/Curitiba
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No último dia 24, quarta-feira, a juventude do PSTU deu continuidade ao Ciclo de Debates sobre Classismo e Combate às Opressões, já iniciado no dia 17/02 com um encontro some Feminismo e Classismo.  Leia artigo clicando aqui: Ciclo Debates: Feminismo e Classismo.

Neste segundo momento, com o tema LGBTs* e Classismo, participaram da discussão cerca de 40 pessoas, de estudantes a trabalhadores.  A conversa iniciou com uma retomada das origens da LGBTfobia, focando no caráter específico e acentuado que essa opressão tomou com a ascensão da burguesia e consequente imposição dos valores burgueses à classe trabalhadora, processo que no Brasil se deu no início do século XX.

Os interesses da burguesia, então já aliados ao Estado e às forças policiais, assim com o discurso médico da época e a composição familiar estruturada num núcleo formado pelo patriarca, mulher e filhos, marginalizavam duramente os LGBTs – que foram excluídos dos espaços públicos, num processo de higienização social, e tiveram sua sexualidade patologizada. Muito disso persiste até hoje[C1] , privando a população LGBT de seus direitos e mesmo de sua existência.

Da resistência aos ataques incessantes, surge o movimento LGBT (primeiramente chamado de movimento gay, ou de gays e lésbicas). Essa organização nasce inspirada na revolta de Stonewall – nome de um bar que atendia ao público LGBT nos Estados Unidos e era frequentemente fechado pela polícia, tendo seus frequentadores assediados e violentados pela força do Estado.  Em 1969, o abuso de poder era tanto que provocou uma rebelião da comunidade LGBT - protagonizada pelas mulheres trans que frequentavam o local - que enfrentou a polícia por dias e foi apoiada por vários setores oprimidos e explorados da sociedade, como sindicatos de professores, imigrantes, feministas, negros e negras e opositores à guerra do Vietnã.

No Brasil, o movimento demora um pouco mais a surgir, graças à repressão da ditadura militar - a partir de 1976, surgem os primeiros grupos de homossexuais organizados. É importante lembrar que, nos seus primeiros passos, o movimento LGBT brasileiro se aproximou dos trabalhadores. Em 1980, após uma briga interna entre parte dos ativistas do “Somos – Grupo de Afirmação Homossexual” de São Paulo, parte do grupo decidiu participar das manifestações do 1º de Maio (Dia Internacional dos Trabalhadores), ainda que receosos com a reação dos operários do ABC. Ao entrarem no estádio com grandes cartazes de apoio, foram vivamente aplaudidos! Enquanto isso, a outra parte do SOMOS, que considerava esse tipo de luta um desvio da pauta LGBT, realizou um piquenique no Jardim Botânico.

A partir de Stonewall o movimento LGBT, através da força e da luta cotidiana de seus militantes, conquistou algum espaço na sociedade. Ainda assim, a exclusão e a violência contra aqueles que desviam dos padrões dominantes continua latente e define a existência social dessas pessoas. Nós sofremos agressões físicas e verbais nas ruas e espaços públicos, muitos de nós são expulsos de casa ainda muito jovens, passamos por discriminações homofóbicas e transfóbicas ao adentrar o mercado de trabalho, o que nos empurra para empregos precarizados como serviços de telemarketing, e no caso de mulheres trans, a prostituição. Nossos espaços de sociabilidade são constantemente vigiados pela polícia, a aniquilação simbólica e social de nossa existência nos deixa mais suscetíveis a problemas psíquicos [PET2] como depressão e ansiedade, entre outras questões.

A luta LGBT hoje em dia.

Porém outro obstáculo na luta LGBT por seus direitos é o rumo que muitas das suas lideranças e grupos organizados tomaram. No Brasil, a organização das LGBTs se resume a pequenas ONGs e cooperativas, que dependem de verba do Governo para existir. Além disso, se antes existia algum espírito de Stonewall nas lutas, ele se perdeu ao movimento ser cooptado para as instituições governamentais. Recente é o caso da visita de Jean Wyllys (PSOL) a Israel, país conhecido pela relativa libertada às LGBTs, mas que realiza um regime de apartheid com as LGBTs palestinas, que não tem acesso aos direitos israelenses e são duramente oprimidas e perseguidas.

Usando a pauta LGBT como trampolim eleitoreiro, muitas figuras políticas (algumas até mesmo membros atuantes no movimento LGBT) apoiam-se nas demandas urgentes dessa população para angariar votos, quase sempre para governos cuja prioridade não será o combate à homofobia e à transfobia, muito menos a garantia de direitos à classe trabalhadora.

Em época de campanha, esses partidos aproveitam-se da esperança que os LGBTs depositam nas urnas acreditando que esses candidatos levarão ao Congresso soluções para as violências que sofremos diariamente, que nos deixaram cicatrizes ao longo de nossas vidas e que desejamos eliminar do nosso futuro. Esses partidos, os mesmos que traem a classe trabalhadora, traem também seus eleitores LGBTs - usando a perspectiva de um futuro melhor como bandeira, porém nada fazendo para garanti-lo. Pior, muitas vezes inclusive facilitando a exploração do capitalismo e a disseminação da lgbtfobia.

No governo Dilma (PT), a luta pelos direitos LGBTs retrocedeu. A presidente vetou o kit anti-homofobia, além de arquivar o PLC122, que criminaliza a LGBTfobia. Além disso, é um governo que anda de mãos dadas com a bancada evangélica e fundamentalista, fato materializado pela “Carta ao Povo de Deus”, em nome da governabilidade. Nem este governo e nem políticos como Eduardo Cunha, Malafaia, Bolsonaro e Marcos Feliciano defendem e respeitam as LGBTs!

A opressão contra nós LGBTs é acentuada e mantida pela exploração da burguesia, que se aproveita desse sistema de privilégios, assim com o faz com o machismo e o racismo. Jamais poderemos nos livrar dessas correntes sem o fim do capitalismo, e a libertação da humanidade não pode se dar sem o combate e o fim das opressões. Por isso acreditamos que a luta LGBT e da classe trabalhadora devem caminhar juntas, para botar para fora todos aqueles que nos atacam, nos exploram e nos oprimem!


*Lésbicas, Gays, Bissexuais e pessoas Trans.

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