18 de fevereiro de 2016

Bernie Sanders (EUA): candidato independente ou uma armadilha?

Por Juan Diaz e Florence Oppen 
Bernie Sanders: candidato independente da classe trabalhadora ou uma armadilha?
Com a entrada de Bernie Sanders nas eleições de 2016, nos Estados Unidos, muitos ativistas honestos enxergam sua candidatura como uma luz de esperança. Infelizmente, essa centelha é exatamente isso: uma centelha que cria o risco de encurralar os trabalhadores e oprimidos na armadilha presidencial.

(Artigo publicado por Workers’ Voice / La Voz de los Trabajadores em setembro de 2015)
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Com a entrada de Bernie Sanders nas eleições de 2016, nos Estados Unidos, muitos ativistas da classe trabalhadora e lutadores honestos por um mundo melhor enxergam sua candidatura como uma luz de esperança na sombria situação política, social e econômica em que os norte-americanos se veem hoje. Infelizmente, essa centelha é exatamente isso: uma centelha que cria o risco de encurralar os trabalhadores e oprimidos na armadilha presidencial de 2016.

Nós acreditamos que Bernie Sanders, apesar de ter vários elementos progressistas em sua plataforma, não é uma alternativa política verdadeira para os trabalhadores. Isso se dá principalmente por que: 1) ele pertence ao Partido Democrata e 2) ele ignora uma série de questões de vital importância para os “99%” que são a classe trabalhadora, em particular no que tange aos setores mais oprimidos (imigrantes, negros e negras) e àqueles que sofrem com as guerras dos EUA no exterior.

Há uma razão pela qual Sanders está tentando ganhar a nomeação do Partido Democrata e não chamando a formar um partido independente. Por trás de seu “pragmatismo” está a crença de que é suficiente apenas mudar algumas políticas e melhorar a distribuição de renda para “consertar” o sistema capitalista e fazer com que ele funcione a nosso favor. Ao contrário disso, os socialistas rejeitam inteiramente a política de austeridade, demissões em massa, militarismo e repressão, e nós não achamos que isso possa ser impedido por um candidato “progressista” no Partido Democrata. Nem o PD nem o capitalismo podem ser reformados. Não é uma questão de eleger a “pessoa certa” que tenha uma moral elevada e grandes ideais para ocupar as posições corruptas do Congresso e da Casa Branca, como Sanders está nos levando a pensar.

Precisamos romper com a cultura política estabelecida, com o Congresso de milionários e com os partidos gêmeos dos 1% [o Partido Democrata e o Partido Republicano], e realizar ações políticas independentes das massas para mudar as coisas. A classe trabalhadora e os povos oprimidos precisam e merecem uma mudança completa e real, e é por isso que pessoas ativas no movimento operário, em Winsconsin, no Occupy, no movimento de imigrantes e no Black Lives Matter continuam lutando. E, para conseguir isso, a coisa mais importante da qual precisamos é uma voz política independente que assuma uma posição clara sobre as questões importantes para nós.

Quem é o senador Sanders e por que ele surgiu agora?

As vastas somas de bilhões de dólares que os capitalistas e suas organizações estão gastando nessa campanha para competir à presidência mostra a sede e o desespero da classe dominante e de seus partidos gêmeos, o Democrata e o Republicano, para chegar ao poder1. Na infinita espiral para transformar o processo eleitoral em mais um negócio, ambos os partidos agora estão preocupados com o fato de que as eleições parecem ao cidadão médio um acordo feito com antecedência – um acordo que é sobre dinheiro e relações de poder estranhas à classe trabalhadora. As candidaturas, tanto de Donald Trump quanto de Sanders, são uma tentativa de acobertar a imensa máquina financeira das multinacionais norte-americanas que funcionam pelas costas das pessoas, e de se aproximar do cidadão “médio” ou da assim chamada “classe média”. Eles querem ver as pessoas interessadas no jogo eleitoral e longe da construção dos movimentos sociais, de partidos e organizações alternativas, que são os únicos veículos que podem competir com o poder político e social da classe dominante.

No entanto, Sanders parece ser um jogador complicado nessa equação, e sua campanha está provocando reações ambíguas entre ativistas operários e de movimentos por justiça social. Ele se apresenta como um candidato verdadeiramente “independente”, até chama a si mesmo de “socialista”, mas aspira a ser o candidato dos Democratas. Ele definitivamente lidera uma campanha de tipo diferente da de Hillary Clinton: seus principais doadores são sindicatos (maquinistas, caminhoneiros, educadores, etc.) e pessoas que fazem pequenas doações (ele recebeu 250.000 doações de, em média, US$33,51), enquanto Clinton, assim como todos os outros candidatos de ambos os partidos, é maciçamente financiada pelas corporações2. Ele insiste em fazer comícios com a presença dos trabalhadores e da classe média, ao invés de festas luxuosas para levantar doações de campanha. De fato, o que sua campanha mostra é que existe espaço político para uma alternativa eleitoral liderada pela classe trabalhadora, que poderia ter uma chance de derrotar os partidos tradicionais das grandes empresas e abrir espaço para debater publicamente nossos próprios problemas.

No entanto, Sanders tem um histórico de ser um candidato do establishment moderadamente radical: ele passou os últimos 30 anos como político de Washington e membro do Congresso com fortes laços com o Partido Democrata. É verdade que ele geralmente se pronuncia à “esquerda” do Partido Democrata sobre questões econômicas, mas não é menos verdade que ele passou toda sua carreira longe da classe trabalhadora e perto dos círculos privilegiados dos políticos apoiados pelas multinacionais. Como ele mesmo disse recentemente: “Não deixe que convençam você que nós somos radicais, que corremos por fora do curso dominante“, “Nós somos o curso dominante“3. E, de fato, Sanders tornou-se um político do curso dominante.

Em 1980, ele começou sua carreira política como um “independente”, e até como um autoproclamado “socialista”, e se associou brevemente ao Partido da União pela Liberdade (Liberty Union Party – LUP), um partido antiguerra e pró-trabalhista4. Ele conseguiu se eleger prefeito de sua cidade, Burlington (Vermont), mantendo sua independência. Mas suas aspirações para se tornar um político de carreira logo o levaram a fazer um acordo com o Partido Democrata em Vermont para que pudesse concorrer a uma vaga nacional em Washington. 

E assim, em 1988, enquanto planejava concorrer à cadeira de Vermont no Congresso e se preparava para enfrentar Paul Poirier, candidato do Partido Democrata, Sanders fez um pacto com o diabo: concordou em impedir a formação de qualquer terceira alternativa real em seu estado e em votar com os Democratas no Congresso em troca da promessa do PD de não concorrer contra ele 5. Desde então, Sanders construiu uma carreira padrão de político profissional. Primeiro ele se matriculou na Escola Kennedy em Harvard, onde construiu todas as suas relações com a elite liberal e as figuras-chave do Partido Democrata. Em 1991, tornou-se membro da Bancada Congressual do Partido Democrata, e, desde 1992, quando fez campanha para Bill Clinton como o “mal menor”, sempre apoiou candidatos do PD nas eleições. 

Foi nas eleições de 2004 que Sanders mostrou sua verdadeira face e completou seu giro de 180 graus quando declarou: “Eu não vou apenas votar em John Kerry como vou viajar por esse país inteiro e fazer o que puder para convencer as pessoas a não votarem em Ralph Nade... farei todo o possível, embora tenha diferenças com John Kerry, para que ele seja eleito“6. Em 2006, ele concorreu ao Senado e novamente fez um acordo parecido com o Partido Democrata. Assim, nos últimos 34 anos, Sanders não teve um emprego real, como a imensa maioria do povo tem. Ao invés disso, subiu mais e mais na elite política.

Portanto, o senador Sanders não é uma voz da base da classe trabalhadora, mas um político a serviço do establishment, dos grandes negócios que agora ele denuncia. Ele tem fortes laços e grande dependência do Partido Democrata e um programa muito limitado de reformas que deixa de lado problemas urgentes e essenciais da classe trabalhadora dos EUA. Nós, socialistas, não estamos procurando um candidato “perfeito”, com um programa socialista já pronto. Nós queremos construir uma alternativa política junto com outras forças políticas e sociais, mas queremos construir uma alternativa viável, que defenda um programa emergencial contra a austeridade e os ataques aos direitos democráticos básicos, e que barre o militarismo imperialista dos Estados Unidos e suas políticas neoliberais em todo o mundo. E é impossível fazer isso sem romper – e depois derrotar – tanto com os Republicanos quanto com os Democratas.

Reformas econômicas: importantes, mas insuficientes

“O que nós temos visto é que, enquanto uma pessoa média está trabalhando mais horas por um salário menor, há um aumento imenso na desigualdade de renda, que agora está chegando a níveis obscenos“, disse Sanders nesse mês de abril. E nisso estamos completamente de acordo com ele7.

A campanha de Sanders está tendo algum sucesso em conseguir apoios e atrair grandes multidões entre os sindicatos8 e os trabalhadores que eles representam. Algumas seções locais da AFL-CIO9 em Vermont e na Carolina do Sul apoiaram-no formalmente ou escreveram declarações de apoio e, mais recentemente, ele conseguiu um apoio imenso do Sindicato dos Enfermeiros Nacionais Unidos – o maior sindicato de enfermeiros do país, com 185.000 membros10.

Sanders está tentando se aproximar do movimento sindical após a traição de Obama, em 2010, de uma de suas principais promessas de campanha: a criação de uma reforma trabalhista significativa, a EFCA11. Uma reforma que agora Sanders quer pôr de novo na mesa. Embora seja progressivo que os sindicatos estejam se afastando de Hillary Clinton, a candidata das corporações, pela primeira vez em décadas, isso não vai ser o bastante para deter a ofensiva brutal contra os sindicatos – uma ofensiva que levou aos índices de filiação mais baixos da história e levou seus membros a terem um dos mais baixos padrões de vida desde os anos 3012.

No entanto, a razão principal para o apoio sem precedentes que Sanders está recebendo tem a ver com as reformas pragmáticas e concretas de sua plataforma econômica, que incluem medidas muito progressistas que os socialistas apoiam, e pelas quais estamos prontos para lutar: o salário mínimo de US$15 por hora (embora ele não esteja propondo um aumento imediato, mas um horizonte a ser alcançado em 2020), duas semanas de férias pagas para todos os trabalhadores (não existe mínimo na lei federal até hoje), 12 semanas de licença médica e familiar paga e uma semana de dias pagos por doença. Essas seriam vitórias extraordinárias e concretas para os trabalhadores dos Estados Unidos, como também seriam a defesa e a expansão da Seguridade Social e dos planos de Paternidade Planejada ou o estabelecimento de um sistema único de saúde, como Sanders também propõe13.

A posição de Sanders quanto à educação pública também é outro de seus grandes atrativos para estudantes e professores. Obviamente, nós apoiamos seu recente projeto de lei que propõe acabar com as mensalidades de todos os cursos de nível superior que durem quatro anos, um projeto que Hillary Clinton também apoia, mas nós também precisamos expandir o sistema de educação pública e aumentar sua qualidade. No entanto, Sanders inicialmente apoiou e votou pela lei “Nenhuma Criança Deixada Para Trás” (NCLB – No Child Left Behind) de Bush em 2001, que é responsável pelo atual currículo escolar e pelo sistema nacional de testes padronizados e que amarrou o orçamento das escolas aos resultados nos testes. 

Ele posteriormente mudou seu voto para se opor à versão final da lei, mas não defende sua revogação. Sua proposta é de simplesmente “emendar” a lei existente ao invés de estabelecer uma educação pública completamente paga pelo governo federal, que dê igualdade de condições e mais (e não menos) recursos para os distritos escolares mais pobres e marginalizados14.

Mas, para os trabalhadores dos Estados Unidos, nossas vidas são mais do que as questões econômicas como o salário mínimo de US$15 ou as escolas públicas gratuitas de ensino superior, que apoiamos completamente. Os socialistas e todos que querem uma mudança de verdade nesse país também lutam pelo fim do racismo enraizado, que mantém grandes quantidades de trabalhadores intimidados e desprovidos de seus direitos e que constrói barreiras entre trabalhadores, ou por direitos civis e políticos completos para os 20 milhões de trabalhadores imigrantes que vivem nos EUA. 

Nós estamos extremamente preocupados com o crescente abismo de direitos econômicos entre homens e mulheres, os ataques aos direitos de aborto e contracepção durante essa última década em nome da “liberdade religiosa” das corporações e a humilhante retórica “pró-vida”, que desmoraliza a capacidade das mulheres de escolherem o que querem para suas vidas. 

Nós nos opomos à presença norte-americana no Oriente Médio, suas políticas neoliberais desastrosas no continente americano, em particular no México e na Colômbia, suas tentativas continuadas de subornar, desviar ou cooptar as revoluções que estão acontecendo (como é o caso da Síria), a proliferação de suas bases militares no Iraque e em todo o mundo, e a própria existência do centro de tortura ilegal de Guantánamo. Mas qual é a visão de Sanders sobre todas essas questões que vão além de uma mudança na distribuição dos recursos econômicos?

Sobre a questão racial, nós poderíamos dizer que Sanders tem um histórico bastante vergonhoso: ele assinou e votou em uma lei crítica que iria construir prisões e levar a um encarceramento em massa de trabalhadores negros e latinos, que existe até hoje – a Lei Criminal das Três Infrações15. Essa lei gerou um orçamento gigantesco para construção de prisões e mandou muitos infratores para “a prisão perpétua por uma terceira infração, qualquer tipo de terceira infração, incluindo infrações relacionadas a drogas e outras não violentas“16. 

Depois dos protestos de Ferguson e Baltimore, um candidato cuja campanha teve que ser interrompida por ativistas do Black Lives Matter para que ele incluísse alguma coisa sobre igualdade racial em sua plataforma não é um candidato em quem possamos confiar para se posicionar sobre questões democráticas.

A visão de Sanders sobre a reforma migratória não é muito diferente da de Obama e de Clinton. Ele apoia a lei migratória completa que foi aprovada no Senado em 2013, que proveria “um caminho para a cidadania para alguns dos cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais vivendo nos Estados Unidos“, mas que também “aumenta imensamente a segurança nas fronteiras” e proíbe a “legalização de imigrantes ilegais até que o governo envie mais 20.000 agentes da Polícia de Fronteira, torna obrigatórias as verificações E-Verify para impedir que empresas contratem trabalhadores ilegais, termina a construção de um muro de 700 milhas na fronteira e cria sistemas de entrada e saída para conferir se pessoas de outras nações estão presentes há mais tempo do que seus vistos permitem“17. Sanders disse que, como “presidente, se o Congresso não aprovar uma reforma migratória, ele usaria de sua prerrogativa executiva para dar alívio de deportação aos pais de cidadãos americanos“18.

Só que os imigrantes não precisam de “alívio de deportação”, eles precisam de direitos civis e políticos completos, eles precisam de cidadania! E Sanders não dará isso a eles. Ao apoiar a legislação migratória de Obama, Sanders vai continuar dividindo famílias de imigrantes e comunidades em função da data de sua chegada aos EUA e a horrorosa militarização das fronteiras e a espionagem e criminalização dos “imigrantes em fase de qualificação”. 

Mais ainda, ativistas pelos direitos dos imigrantes criticaram seus recentes comentários que “demonstram a noção completamente falsa de que imigrantes vindos para os Estados Unidos estão roubando empregos e causando prejuízo aos norte-americanos – especificamente os jovens, latinos e afro-americanos“19. Por isso, não é surpreendente que Sanders tenha índices de aprovação tão baixos entre negros e latinos, e isso reflete uma percepção de que Sanders não oferece uma perspectiva para a libertação negra ou os direitos dos imigrantes.

Sobre os direitos das mulheres, a promessa de Sanders de que vai nomear juízes pró-escolha para a Suprema Corte não é o suficiente. Nós precisamos urgentemente de uma lei federal que garanta aborto seguro e gratuito a pedido da mulher em todos os lugares do país, sejam quais forem as atitudes machistas de alguns deputados locais. Prosseguindo: será que Sanders vai fechar Guantánamo e perdoar a dívida de Porto Rico e dar a esses cidadãos de “segunda classe” direitos iguais? 

De fato, a omissão mais preocupante do candidato “progressista” tem a ver com a política externa e seu apoio às guerras dos Estados Unidos: o senador Sanders tem um histórico assustador de votar a favor de todas as intervenções militares dos EUA em outros países. Ele apoiou a lei proposta por Clinton em 1996, precursora da Lei Patriota (a Lei Antiterrorista e de Pena de Morte Efetiva), as sanções econômicas contra o Iraque em 1991, que mataram meio milhão de crianças20, o primeiro bombardeio norte-americano do Iraque em 1992, a guerra em Kosovo de Clinton, e votou pelos créditos para as guerras do Afeganistão e do Iraque. É difícil encontrar um aliado mais fiel do militarismo dos Estados Unidos.

Mais recentemente, em 2006, ele votou a favor da Resolução Congressual 921 que apoia a guerra de Israel contra o Líbano, da 4681 que impõe sanções à Autoridade Palestina após a vitória do Hamas em Gaza e, no ano passado, ele apoiou a Resolução do Senado 498, que apoia a recente guerra de Israel contra Gaza em nome do “direito de Israel a se defender”. Finalmente, Sanders declarou recentemente que não se opõe ao programa de drones dos EUA, que matou pelo menos 2464 pessoas desde que Obama assumiu a presidência, argumentando que “temos que usar os drones com muita, muita seletividade e eficiência. Não foi sempre que isso aconteceu“21.

A campanha de Sanders direciona-se para um apoio “progressista” a Clinton e ao Partido Democrata?

Porém, o principal problema da candidatura de Sanders nesse momento não é que seu programa seja “insuficiente”. Embora seja verdade que seu programa não responde a necessidades fundamentais da classe trabalhadora, o mais importante dos passos ausentes de sua campanha é uma ruptura com o Partido Democrata. 

O PD é o coveiro histórico dos movimentos radicais independentes dos trabalhadores e sociais nos Estados Unidos. Só para dar alguns exemplos recentes, lembremos como os dirigentes sindicais e os Democratas encurtaram e traíram a massiva e inédita greve geral dos trabalhadores imigrantes na Califórnia em 2007, e como, três anos depois, o levante dos trabalhadores de Wisconsin foi canalizado à força pelo PD para uma campanha de reeleição do governador republicano Walker, ou como os liberais e funcionários das ONGs cooptaram o movimento Occupy ao levá-lo a apoiar a reeleição de Obama em 2012. 

Nós devemos começar a construir um partido independente dos trabalhadores já – e não depois. E nós devemos construir uma alternativa política que seja controlada pela base e não formada por políticos profissionais; uma organização política que esteja aberta aos movimentos sociais e sindicatos combativos, aos ativistas da educação e dos direitos dos imigrantes, assim como aos organizadores dos movimentos negro e antiguerra, que possam discutir e formar sua plataforma política.

O fato de que Sanders não fez isso, somado à sua carreira como Democrata, demonstra que ele não apenas não representa uma ruptura com o sistema político que governa o país, mas que, ao contrário, ele é um obstáculo para esse projeto de alternativa política. Sanders pode ser a última reserva dos 1% para manter a adesão da classe trabalhadora a um sistema de opressão e exploração.

Afinal, a campanha de Sanders é uma maneira de encurralar e canalizar as pessoas para o Partido Democrata, quer dizer, para evitar uma campanha e um candidato realmente independente. Ele é mais uma tentativa do PD (e ele é um apoiador “até que a morte os separe” do PD) de trazer algum frescor e mostrar que a “esquerda” do Partido Democrata tem pessoas que se importam com as questões dos trabalhadores. Sua campanha é semelhante às de Dennis Kucinich (2008), Jesse Jackson (1984, 1988), Theodore Roosevelt (1912) e outras tentativas históricas “de esquerda” do Partido Democrata que cooptaram e colocaram uma bonita fachada amigável no partido da classe dominante e então canalizaram os ativistas para apoiar as campanhas do PD. 

É uma estratégia da classe dominante que, infelizmente, provavelmente vai ter algum sucesso. Movimentos anteriores da classe trabalhadora e dos oprimidos sucumbiram a essa armadilha eleitoral, incluindo os movimentos pelos direitos civis na década de 1960, e outros movimentos de negros, indígenas e mulheres nos anos 70.

A campanha de Sanders está ajudando as pessoas a acreditarem que existe uma esquerda atuante no PD, e existe um grande risco e grande chance de que, se Sanders perder as primárias que se aproximam [este artigo foi escrito antes do início das eleições primárias, pelas quais os candidatos a presidente dos partidos Democrata e Republicano são escolhidos]22, ele levará seus eleitores a apoiarem Clinton. Se esse cenário se confirmar, Clinton pode aparecer como “cedendo” à esquerda e aí renascer como uma “progressista”. Como resultado, a campanha de Sanders pode reforçar o poder do Partido Democrata e aumentar a desilusão dos setores progressistas da classe trabalhadora.

Qual é a alternativa?

Ao invés de apoiar e fazer campanha para Bernie Sanders (o que implica, em última análise, em dar uma cobertura da classe trabalhadora para o PD), nós devemos usar o período eleitoral para educar, organizar e mobilizar os trabalhadores, os oprimidos e a juventude em nossos movimentos e, ao mesmo tempo, discutir com aqueles que apoiam a campanha de Sanders, e também seus oponentes, sobre a necessidade de construir uma frente eleitoral socialista onde for possível em 2016 e começar a construir os passos para um partido da classe trabalhadora e dos oprimidos independente. 

Nós já tivemos sucessos eleitorais e experiências de “esquerda” nos últimos anos, como a campanha vitoriosa de Kshama Sawant ao Conselho Municipal da cidade de Seattle em 201423, e o esforço de outros que deram grandes passos, como a campanha de Jorge Mujica feita pela Campanha Socialista de Chicago em 201524, que mostram o potencial e a influência do uso das eleições locais para ajudar a expandir as ideias e políticas socialistas. Esses esforços de campanha locais, de base e com independência de classe deram aos trabalhadores e oprimidos uma alternativa concreta e viável no presente e tem uma perspectiva de longo prazo.

Especificamente, a vitória da Alternativa Socialista (Socialist Alternative – SALT, seção local do Comitê por uma Internacional Operária) com a campanha de Sawant e seu mandato mostram que seria uma boa iniciativa difundir isso nacionalmente, como o SALT chamou a fazer em 2014, e construir muitas campanhas locais ou estaduais semelhantes à de Sawant em 2016 e no futuro. 

A vitória de Sawant não aconteceu do dia para a noite; o SALT precisou fazer campanhas durante anos anteriores (2012, 2013) para que sua candidatura criasse raízes e construísse os alicerces de sua vitória em 201425. Ao invés de deixar esse plano para o futuro indeterminado, interessa muito aos socialistas, trabalhadores e oprimidos tornar isso uma realidade nas cidades e estados onde for possível. 

Nessa linha, a proposta do SALT em 2014 de “criar coalizões ao longo do país com o potencial de se unirem em nível nacional para lançar 100 candidatos independentes da classe trabalhadora nas eleições de meio de mandato de 2014“26 seria uma boa proposta para 2016. 

Infelizmente, o SALT, ao invés disso, escolheu apoiar e construir a candidatura de Sanders27. Isso é uma traição imensa à campanha de independência política representada pela candidatura de Sawant e uma oportunidade perdida de disputar com a socialista mais conhecida do país atualmente a ideia de mudança política e progresso que hoje é levada a cabo pelo Partido Democrata.

Uma frente eleitoral socialista poderia reunir não só as forças de várias organizações socialistas e seus apoiadores, mas também poderia contribuir para que eles se enraizassem nas lutas importantes dos operários e oprimidos para mobilizá-los e usar os meios eleitorais para difundir nossas ideias e criar influência e poder de organização. 

Como socialistas, as eleições devem ser usadas para difundir nossas ideias e propostas, mas também para usar a tribuna para mobilizar nossa classe para as lutas em que estão envolvidas em seus sindicatos, locais de trabalho, escolas e comunidades. Lutar por sindicatos e organizações de trabalhadores, democráticos e classistas, por um movimento de educação pública composto por estudantes, professores e todos os trabalhadores da educação, por movimentos sociais e organizações que lutem pela libertação dos negros, latinos, imigrantes, mulheres, LGBT e outros oprimidos, deveria ser o centro dessas campanhas eleitorais. 

A política e propostas dos socialistas farão com que eles se destaquem e construam as bases de um partido independente da classe trabalhadora que precisamos para competir com os partidos gêmeos da classe dominante, não apenas eleitoralmente, mas, o que é ainda mais importante, nos locais das lutas do dia-a-dia.

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Notas:

1.http://www.bloombergview.com/articles/2015-04-26/how-record-spending-will-affect-2016-election

2. http://www.cnn.com/2015/07/02/politics/bernie-sanders-fundraising/

3. http://www.washingtonpost.com/news/post-politics/wp/2015/09/09/sanders-campaign-says-70000-labor-union-members-joined-wednesday-conference-call/

4. http://www.bloomberg.com/politics/articles/2015-08-20/bernie-sanders-deal-with-the-democratic-devil

5. http://www.counterpunch.org/2015/07/21/bernie-out-of-the-closet-sanders-longstanding-deal-with-the-democrats/

6. http://socialistworker.org/2015/05/05/problem-bernie-sanders

7.http://www.usmagazine.com/celebrity-news/news/bernie-sanders-running-for-president-competing-with-hillary-clinton-2015304

8.“De 7.500 em Burlington, Vermont, a 300 em Birmingham, Alabama”. Leia em: http://www.labornotes.org/2015/07/support-sanders-grows-unions#sthash.JVVpUB8e.dpuf

9. http://www.labornotes.org/2015/07/support-sanders-grows-unions#sthash.JVVpUB8e.dpuf

10. http://www.cnn.com/2015/08/10/politics/bernie-sanders-nurses-endorsement-2016/

11. A Lei da Livre Escolha do Trabalhador permitiria a fundação de novos sindicatos para negociar com os patrões se a maioria dos trabalhadores em um local de trabalho fossem a favor de sua criação.

12.http://www.nytimes.com/2015/02/08/business/the–shrinking–american–labor–union.html. Durante os últimos 7 anos do governo Obama – exatamente como antes -, as direções sindicais foram muito débeis em sua luta contra, se é que não foram cúmplices diretos, as políticas do Partido Democrata e do Partido Republicano que atacaram direitos trabalhistas como aposentadoria, saúde, direito de greve e direito de sindicalização. As direções dos sindicatos estão certas em temer que a Suprema Corte, com o apoio das maiorias do PD e do PR, discutam uma lei que estabelece uma “taxa justa” para as contribuições sindicais no próximo ano. Vão precisar educar, organizar e mobilizar seus membros e membros das comunidades em números massivos para impedir que isso aconteça e apoiar a causa dos trabalhadores.

13. Além disso, “ele é um oponente declarado do Tratado Transpacífico (TTIP), outro acordo transnacional empresarial que vai atacar trabalhadores aqui e em outros países, como fez o NAFTA nos anos 90, mas isso não faz dele um inimigo das políticas neoliberais”. http://www.labornotes.org/2015/07/support-sanders-grows-unions

14.http://www.salon.com/2015/04/08/america_is_criminalizing_black_teachers_atlantas_cheating_scandal_and_the_racist_underbelly_of_education_reform/. A lei “Nenhuma Criança Deixada Para Trás” (NCLB) levou ao descredenciamento, redução de orçamento e privatização do ensino público médio e fundamental e, mais uma vez, são as escolas dos negros e latinos das periferias e seus estudantes que sofrem com o grosso dos ataques.

15. http://www.cnn.com/2015/07/15/politics/bill–clinton-1994-crime–bill/

16.http://therealnews.com/t2/index.php?option=com_content&task=view&id=31&Itemid=74&jumival=14507

17. http://www.huffingtonpost.com/2013/06/27/senate-immigration-reform-bill_n_3511664.html

18. Ibid

19. http://blog.fwd.us/bernie-sanders-immigration

20. http://www.nytimes.com/1995/12/01/world/iraq-sanctions-kill-children-un-reports.html

21. http://thinkprogress.org/world/2015/08/31/3697175/bernie-sanders-wouldnt-end-obamas-drone-program-promises-to-use-it-very-selectively/

22. http://fivethirtyeight.com/features/stop–comparing–donald–trump–and–bernie–sanders/

23. https://en.wikipedia.org/wiki/Kshama_Sawant

24. http://inthesetimes.com/article/16637/chicagos_socialist_city_council_candidate_throws_his_hat_into_the_ring

25. http://www.socialistalternative.org/2014/01/31/lessons-kshama-sawants-historic-victory/

26. http://www.socialistalternative.org/2013/11/07/election-victories-for-socialist-alternative/

27. http://www.socialistalternative.org/2015/05/09/bernie-sanders-independent-campaign/

Leia este e outros artigos em lavozlit.com


Tradução: G. Tolstoy

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