15 de novembro de 2015

Todos somos Franceses, Sírios, Palestinos!

Marcio Palmares, diretor do Sinditest/PR


"Sem dúvida é preciso prestar solidariedade aos franceses. Observemos, porém, o seguinte: por que a solidariedade motivada pelas campanhas da imprensa internacional é tão seletiva?"
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Hoje e nos próximos dias, sob influência da pesada maquinaria da imprensa internacional, todo o mundo se lembrará de prestar solidariedade aos franceses, ao povo francês, à França. Os jornais dizem que 140 franceses perderam a vida ontem. Eram inocentes. A maioria, sem dúvida, formada por trabalhadores, gente simples que nada tem a ver com os negócios realizados pelo imperialismo francês no Oriente Médio.
Massacre de civis, incluindo crianças, idosos e mulheres na Síria
Sem dúvida é preciso prestar solidariedade aos franceses. Observemos, porém, o seguinte: por que a solidariedade motivada pelas campanhas da imprensa internacional é tão seletiva?
140 é um número típico para as mortes diárias de inocentes na Síria ou nos campos de refugiados... O povo sírio, crianças, homens, mulheres, idosos, está sendo trucidado há quatro anos pela contrarrevolução promovida pela coalizão internacional que apoia a ditadura sanguinária e terrorista de Bashar al-Assad.
Mas ninguém se lembrará de dizer "Todos somos Sírios", porque o povo sírio não tem o poder que o capital imperialista francês possui, e não poderá comprar os serviços da imprensa internacional.
Uma única criança síria recebeu a solidariedade e a comoção do mundo: o refugiado Aylan, de três anos, que foi encontrado numa praia na Turquia depois que sua embarcação naufragou. A foto escapou do filtro anti-solidariedade e foi estampada nos principais jornais de todo o mundo. As pessoas se comoveram. Mas como o Aylan, morrem todos os dias dezenas de crianças sírias: afogadas, vítimas dos bombardeios com barris de TNT e material de fragmentação, vítimas dos sofisticados e poderosos ataques aéreos russos, que atingem hospitais de campanha, padarias, bairros com grande densidade populacional. Agora, a Rússia decidiu apelar para a suprema crueldade: realizou bombardeios com fósforo branco, material proibido há décadas pelas convenções internacionais de guerra. O fósforo branco é um gás que reage com material orgânico. Queima as pessoas vivas, lentamente, até aos ossos, deixando suas roupas intactas. Dezenas de sírios devem ter morrido assim nesta noite. Mas ninguém prestará solidariedade a eles. Ninguém se lembrará de dizer "Todos somos Sírios". As pessoas dirão apenas "Todos somos franceses".
Quem pagará pelos atentados do Estado Islâmico na França? Em primeiro lugar, os imigrantes de toda a Europa, principalmente os árabes, que serão agora explorados ainda mais, rumo a um novo tipo de escravidão, sustentada pela xenofobia e pelo revanchismo. Em segundo lugar, pagarão os sírios e os palestinos, já barbaramente castigados pela contrarrevolução e pelo Estado de Israel, respectivamente.
Bombardeio de Israel contra palestinos
E o Estado Islâmico, sofrerá consequências? Dificilmente. O Estado Islâmico é um subproduto da destruição do Iraque causada pela invasão promovida pelos EUA. Quando a ocupação ianque acabou, há poucos anos, motivada pela reação do povo trabalhador norte-americano, contrário à manutenção das tropas no Iraque (e não por bondade de Obama), havia apenas caos e destruição. Quando as primeiras milícias do então ISIS atacaram as forças militares iraquianas nessas áreas ocupadas, tais forças fugiram, pois já não contavam com a cobertura dos EUA. Nessa fuga, deixaram arsenais americanos para trás, além de porções imensas de território. 
O ISIS, agora armado até aos dentes, passou a controlar a venda do petróleo cru que até então era roubado pelos EUA (ladrão que rouba ladrão). Ganham atualmente mais de um milhão de dólares por dia, só no Iraque. São agora poderosos capitalistas, piratas contemporâneos. Somente ataques aéreos não podem detê-los. É preciso fazer incursão terrestre. Mas como convencer um soldado francês sem qualquer experiência com guerras reais a lutar contra combatentes experientes, veteranos da guerra do Iraque, das guerras do Afeganistão? Um soldado francês não tem a menor chance contra um mercenário do Estado Islâmico, a menos que em sua mente possa ser insuflado... o veneno mortal do patriotismo. Eis porque esses atentados beneficiam o capital imperialista francês, do mesmo modo como os atentados contra as torres gêmeas em 2001 beneficiaram a sede de lucros da indústria bélica dos EUA.
A pergunta agora é a seguinte: a França está interessada na repartição da Síria? O capital imperialista francês deseja repartir o território sírio com a Rússia? Os atentados permitirão que o imperialismo francês convença a classe trabalhadora de seus país a enviar seus filhos para a morte na guerra?
Precisamos dizer "Todos somos Franceses", em solidariedade ao povo trabalhador da França que derramou seu sangue ontem. Mas também precisamos dizer: "Todos somos Sírios" e "Todos somos Palestinos", ao mesmo tempo em que devemos condenar a intervenção da Rússia na Síria e a guerra de extermínio do Estado de Israel contra o povo palestino.
Se os capitalistas franceses conseguirem convencer o seu povo a tomar um banho de sangue na Síria, tempos ainda mais difíceis virão. O Estado Islâmico precisa ser destruído, não há dúvida. Mas este não é o desejo da França ou dos EUA. Como sempre, as guerras são apenas meios para que o imperialismo faça mais dinheiro.
Os trabalhadores de todo o mundo devem rechaçar as aventuras de seus governantes em território alheio, ao mesmo tempo em que devem apoiar o povo sírio e o povo palestino, que enfrentam as duas faces da moeda da contrarrevolução no Oriente Médio.

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