20 de abril de 2015

Quem tem medo da ultradireita? Se você não tem, é melhor começar a ter.

Márcio Palmares, militante do PSTU de Curitiba



"E o que o governo Dilma fez até agora para combater a ultradireita?
Nada. Pelo contrário, conscientemente ou não, só tomou medidas que fortalecem a ultradireita, a começar por ter renunciado à necessidade premente (cumprida por vários outros países latino-americanos) de punir os responsáveis pelos crimes da ditadura."
________________________________________________________

É difícil conceber criatura mais grotesca, bizarra ou caricatural do que Mussolini. No entanto, ele chegou ao poder. Do mesmo modo, Hitler era um indivíduo inculto, marginalizado, neurótico, o espécime ideal para encarnar o absurdo da propaganda e do programa nazistas e fazer deles sua razão de ser. Vale lembrar que os nazistas adquiriram maioria parlamentar através de eleições, o que permitiu a Hitler tornar-se chanceler antes que desse os primeiros passos em direção à contrarrevolução e à guerra. (Noutras palavras: mesmo uma nação "desenvolvida" como a Alemanha, com uma classe trabalhadora educada por poderosas organizações políticas e sindicais socialistas, sucumbiu à promessa de redenção do fascismo...)

Seres como Jair Bolsonaro ou o criador da expressão "raio privatizador" parecem-nos, hoje, foragidos de um manicômio. Mas as lideranças do fascismo não podem ser de outro tipo, porque o fascismo/nazismo é o horror da guerra de contrarrevolução contra os trabalhadores e contra todos os oprimidos. Essa guerra só pode ser conduzida por gente como eles...

E o que o governo Dilma fez até agora para combater a ultradireita?

Nada. Pelo contrário, conscientemente ou não, só tomou medidas que fortalecem a ultradireita, a começar por ter renunciado à necessidade premente (cumprida por vários outros países latino-americanos) de punir os responsáveis pelos crimes da ditadura. Cedendo à pressão dos militares, renunciou ao projeto da "Comissão da Verdade e Justiça". A "justiça" foi deixada de lado, ficou só a "verdade". Os criminosos do regime militar seguiram impunes. Enquanto na Argentina, Videla morreu na cadeia, no Brasil os agentes da ditadura seguem livres, no governo, nos altos postos do Estado, no comando das polícias, das Forças Armadas, na direção das grandes empresas e meios de comunicação. É por isso que o aparato clandestino de repressão da ditadura pode assassinar um trabalhador como o Amarildo e dar sumiço no corpo sem que nada aconteça.

Depois dessa terrível traição do governo do PT, não deveríamos nos admirar pelo fato de os defensores do fascismo desfilarem à luz do dia pedindo por um golpe militar (isso, aliás, é crime, mas eles não têm medo, porque o governo do PT concordou com a anistia geral e irrestrita e não fará nada contra eles).

Mais ainda: Dilma recuou na luta contra a descriminalização do aborto, permitindo que toda a reação levantasse a cabeça, sentindo-se vitoriosa. Abriu mão de fazer propaganda nas escolas contra a homofobia, dando nova vitória a eles. Deu corda solta para a bancada da ultradireita/fascista no Congresso Nacional, que sabiamente se esconde "sob a palavra de Deus" e se autodenomina "bancada evangélica". Dilma não tomou nenhuma medida contra Marco Feliciano.

Finalmente, no final de 2013, assustado com as Jornadas de Junho e interessado em preservar os interesses dos capitalistas na Copa do Mundo, o então Ministro da Defesa Celso Amorim deu sua bênção aos militares para que desencadeassem a repressão contra os movimentos sociais, autorizando a expedição do manual de combate contra manifestantes intitulado "Garantia da Lei e da Ordem". Nesse manual, grevistas e manifestantes são tratados no mesmo patamar que narcotraficantes. Desde então, estamos presenciando ondas de prisões arbitrárias e violência policial e parapolicial sem limites, contra manifestações e nas áreas urbanas ocupadas por "forças de segurança".

Quem faz o jogo da direita?

Essas traições do governo do PT é que fazem o jogo da direita e da ultradireita. Nomear um ministro neoliberal, por exemplo, agente do FMI, para chefiar a política econômica, é dar o ouro para o bandido. Nomear a "motosserra-de-ouro" Kátia Abreu, para cuidar da Agricultura, uma agente dos latifundiários, das multinacionais do agronegócio, é fortalecer também a direita, dar mais ouro para o bandido. E por aí vai. Há inúmeros exemplos.

Essa é a razão do despertar da direita e da ultradireita. No momento, eles não planejam um golpe de estado, por duas razões:

1) Dilma faz tudo o que eles querem (com a vaca tossindo ou não);

2) Aécio quase ganhou a eleição. Foi por muito pouco. Ele venceu o PT inclusive no ABC paulista, berço de Lula.

Ou seja, não há necessidade de golpe da direita, primeiro porque a direita já está no governo e todos os seus desejos estão sendo realizados, e em segundo lugar porque ela demonstrou que pode vencer eleitoralmente. Mais ainda: demonstrou que pode fazer grandes manifestações contra o governo, reunindo atrás de si as classes médias e parte dos trabalhadores.

O que Dilma deveria ter feito para combater a direita e a ultradireita?

Para combater a direita e o germe do fascismo, Dilma deveria ter baixado os juros, aumentado os salários, reduzido a jornada de trabalho, rompido com o pagamento da dívida pública e investido os recursos do país onde é preciso: educação, saúde, reforma agrária, serviços públicos de qualidade, habitação, etc. Assim, teria apoio da maioria da população e da classe trabalhadora. Deveria ter usado seu “coração valente” para enfrentar os banqueiros em benefício do povo, e não para mentir descaradamente e retirar direitos trabalhistas.

Agora que o estrago já está feito, que as traições do PT estão consumadas, que a desmoralização atingiu as parcelas da classe trabalhadora que construíram esse partido e a CUT na década de 1980, agora que coisas como Olavo de Carvalho se levantam e começam a desfilar pelas ruas e a bradar seus "gases alfabéticos", arrastando atrás de si multidões enfurecidas pelo tarifaço, pela corrupção, pela perda de direitos, é meio tarde para chorar as mágoas. O governo se escondeu embaixo da cama no dia 15 de março, rezando para que o pesadelo acabasse. Mas isso não vai acontecer, porque já é realidade. E por mais traidor e lacaio do imperialismo que seja o governo Dilma, todo ex-escravo que um dia administra a Casa Grande recebe o mesmo fim quando o filho legítimo do senhor de escravos "retorna da Europa" para administrar os negócios de seu pai... Essa é a posição atual do governo do PT. A burguesia usa o capitão-do-mato, o político traidor, sempre que precisa, mas se desfaz do serviçal logo que se sente forte o bastante para reassumir o comando.

Qual é o caminho para os trabalhadores?

Para nós, trabalhadores, como sempre, é hora de enfrentar o inimigo com coragem redobrada: e os inimigos são os governos (tanto do PT/PMDB quanto do PSDB) e também o monstro representado pela ultradireita, que o próprio PT tratou de ressuscitar e fortalecer.

E só existe um meio de fazer isso: construindo uma Greve Geral no país, que obrigue o governo a recuar.

Ao mesmo tempo, devemos exigir das centrais governistas (CUT, CTB) e dos sindicatos ligados a elas, que rompam com o governo Dilma. Se continuarem defendendo esse governo corrupto e traidor, continuarão sendo os responsáveis pelo fato de que as classes médias e parte dos trabalhadores não dão ouvidos aos sindicatos e preferem participar das manifestações convocadas pela direita.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui a sua opinião!

Marcadores