29 de abril de 2015

A repressão em crise

Diane Muste
PSTU Curitiba


Descontentamento entre policiais é a marca da repressão à greve dos professores na Assembleia Legislativa do Paraná.

Há pouco menos de um ano atrás, almoçava em um restaurante no centro de Curitiba quando um grupo de três rapazes sentou na mesa ao lado. A televisão do lugar passava um jogo da Copa do Mundo, a Espanha enfrentava um time que não me recordo, em Salvador. Os três rapazes, magros e de cabelo raspado de maneira bem rigorosa, começaram a comentar o jogo e começamos uma conversa.

Descobri que aquele era o dia de folga deles, pois faziam parte do destacamento da Polícia Militar convocado pelo governo estadual para fazer a “segurança da Copa”. Os três eram jovens policiais, nascidos e criados em uma pequena cidade do Paraná, para os quais o trabalho na PM significava uma chance de um emprego um pouco melhor que o de seus pais. Mas não esboçavam um sentimento de “amor” pela profissão, na verdade estavam bem chateados.

Um deles sacou o celular para me mostrar fotos da cidade em que morava e que fora inteiramente coberta pelas águas das enchentes que assolavam o interior do estado e alguns bairros da periferia de Curitiba justamente naqueles dias. Estava ansioso pois a casa em que mora com a mãe ficara totalmente submersa na água e, até um dia antes de se deslocar para a capital fazer “a segurança da Copa”, estava tentando salvar o que restava das mobílias, ajudando parentes e pessoas desconhecidas a resgatarem seus pertences.

Agora, em Curitiba, estes três jovens policiais passavam o dia todo parados com indumentárias pesadas e armamento de guerra, fazendo um “show” – palavras deles – para impressionar jornalistas estrangeiros. O governo não lhes oferecia estrutura mínima para dormir ou comer, depois de horas de trabalho eram obrigados a dormir improvisadamente em uma garagem de um hotel. Apesar da ociosidade das funções, eram obrigados a ficar de prontidão e praticamente não tinham direito a folga. Estavam felizes por que a Espanha – time que ficou hospedado em Curitiba – tinha deixado a cidade para um jogo fora.

É de se perguntar se aqueles três rapazes estão hoje fazendo a proteção do jogo de cartas marcadas que o governador Beto Richa montou na Assembleia Legislativa do Paraná para atacar a previdência dos professores e funcionários públicos do estado. As notícias do descontentamento entre os policiais com o cerco convocado pelo governo estadual chegam por vários lugares. Sem lugar para dormir, sem água ou comida, trabalhando por horas a finco em uma situação de desgaste. Muitos reclamam ainda que o cerco obrigou a polícia a desproteger bairros inteiros.

Estes são todos motivos válidos para o descontentamento entre os policiais. Mas existe um que não é mencionado e que certamente é importante. Apesar da Polícia Militar ser uma instituição caduca e cristalizar em si valores claramente antidemocráticos, a geração de policiais que hoje compõe suas fileiras em nada difere daquela geração de trabalhadores que entra no mercado de trabalho precarizado e sem garantia de direitos nas periferias das cidades.

O espírito corporativo da Polícia Militar vive um processo contraditório de crise. Muitos dos policiais são recrutados no interior e nas pequenas cidades rurais, longe das lutas organizadas e encaram os trabalhadores em greve como pessoas beneficiadas por direitos que eles mesmos não possuem, inclusive o próprio direito de se manifestar. Mas isso não impede que possam perceber que seus patrões, os governos e prefeituras, atuam para a defesa dos grandes interesses. Proteger a Copa, não os atingidos por enchentes. Proteger os deputados, não a educação pública. Não é de se estranhar que haja níveis de descontentamento. Os argumentos podem parecer técnicos, mas as razões são políticas.

Em várias das passeatas na primeira greve dos professores e trabalhadores da educação estadual, realizada em fevereiro deste ano, os grevistas entregaram flores aos policiais que faziam a segurança dos atos. Muitos sorriam e permitiam fotos junto com os grevistas. Existia um sentimento de cumplicidade velado, que ficou explícito nos momentos de ocupação da ALEP. A polícia não conseguiu bater e muitos policiais passaram a se identificar espontaneamente com a causa dos professores

Desta vez, com a operação de reforço dos destacamentos a orientação é dispersar a qualquer custo. A ordem foi para retirar e apreender os caminhões de som dos sindicatos no segundo dia da greve, e manifestantes foram atacados e feridos. Hoje, dia marcado para a votação do projeto que ataca a previdência do funcionalismo público na ALEP,  poderá ser pior. A solidariedade dos policiais verificada no começo do ano parece mais difícil de se realizar agora.

O fato é que o sentimento “comum”, de pertencimento a uma mesma classe, não poderá se consolidar sem que a crise da Polícia Militar se desenvolva, se torne mais aguda. Este processo exigirá pressões externas e o desenrolar de crises internas, com a destruição da própria corporação e substituição desta por outra forma de organização da segurança pública. É, portanto, um processo lento e difícil que está apenas em sua fase mais inicial e insipiente. Mas este processo existe, se torna mais dramático com a crise econômica, e é parte essencial da luta popular. 

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