31 de março de 2015

Marchas da Dignidade: não há mudança sem luta operária

Escrito por Bloco Sindical Combativo e de Classe, publicado no site da LIT-QI* em 26 de Março de 2015
Manifestação em Madri - 22 de março de 2014
Distintas colunas de ativistas e lutadores convocadas pelas Marchas da Dignidade vão partir de vários pontos do Estado Espanhol para se encontrar em Madri em 21 de março, para comemorar a grande manifestação de 22M que reuniu centenas de milhares de trabalhadores no ano passado.

A razão é evidente: a situação, longe de melhorar, tem piorado com enorme aumento da repressão para manter a política de saque do setor público, que a Troika denomina hipocritamente como “austeridade”.

Diante desta realidade imperiosa, que atinge a consciência de todas as pessoas de boa vontade e sensíveis ante os enormes sofrimentos que as atuais políticas estão impondo a nossos povos, os diferentes sindicatos e coletivos sociais que atualmente integramos o Bloco combativo e de classe, manifestamos que:

- As organizações sindicais devem estar somente a serviço dos/as trabalhadores/as (na ativa, desempregados/as, precárias/os, estudantes, aposentados/as...), de seus interesses como classe social e atuando distante de favores econômicos e de ingerências políticas alheias ao mundo do trabalho. Seu âmbito de luta e lugar natural de ação está no plano econômico, nos locais de trabalho, enfrentando a precariedade, o desemprego, a perda de direitos trabalhistas, opondo-se ao agravamento das condições de vida dos/as trabalhadores/as.

- Entendendo que as pessoas não são meras produtoras-consumidoras, devemos nos solidarizar e unir nas lutas com os movimentos sociais que defendem tudo aquilo que nos é necessário e comum como classe: saúde, educação, serviços sociais, proteção do meio ambiente, direito à moradia, ao aborto livre e gratuito... e construir assim uma corrente de apoio mútuo na luta social.

Manifestação em Madri - 22 de março de 2014
- Os serviços públicos e sociais não são uma doação de caridade, mas o fruto conseguido como consequência das lutas dos /as trabalhadores/as que nos precederam. São conquistas da classe operária às quais não podemos renunciar. Temos de preservar e fortalecer estes direitos e exigir nossa participação como trabalhadores/as e usuários/as em sua gestão.

- Defendemos o conceito de sindicato como ferramenta de luta coletiva imprescindível contra o capitalismo. Denunciamos e nos opomos à atuação e ao papel do sindicalismo oficial, e à falsa representação que se outorgam de todos os/as trabalhadores/as. Sua própria trajetória, atuações e comportamentos falam por si mesmos. O descrédito do sindicalismo, a baixa sindicalização dos /as trabalhadores/as e a perda da consciência de classe é sua única conquista em mais de três décadas, entre outros motivos devido ao seu insultante nível de corrupção e clientelismo.

- Acreditamos que é necessário recuperar os valores e o orgulho de pertencer à classe operária. Somos maioria. Sem nós nada é possível. Devemos construir e reforçar todas as ferramentas destinadas à distribuição equitativa da riqueza entre todas as pessoas, exigir respeito e direitos, e organizarmo-nos para nos opormos aos ataques trabalhistas e sociais que a classe empresarial e política estão levando a cabo de forma uníssona para aumentar e defender seus benefícios e privilégios, às custas de nossos sacrifícios e do futuro das próximas gerações.

- A classe trabalhadora sofre despejos enquanto é obrigada a financiar obras faraônicas, úteis apenas para encher os bolsos dos políticos, empresários e banqueiros; aonde lhes interessa destroem o tecido produtivo e o emprego, e nos conduzem para uma crise não só econômica, mas também energética e de recursos.

- Reivindicamos a greve geral como a maior ferramenta de luta nas mãos dos trabalhadores. Afirmamos sua eficácia e vigência, assim como a necessidade de articulá-la fora dos velhos parâmetros da fábrica ou do escritório. Greve geral da produção sim, mas também de consumo e social, de 48 horas ou as que sejam necessárias. Não queremos outra greve geral de 24 horas “para inglês ver” que contribua para provocar mais frustração e desmobilização entre os /as trabalhadores/as.

- Trabalharemos conjuntamente para tentar construir uma greve real a partir da base, com os/as trabalhadores/as, e os movimentos sociais. Essa greve já foi convocada a partir das instâncias representativas das Marchas da Dignidade. Queremos contar com todos aqueles que queiram construí-la por fora do sindicalismo oficial.

- Promoveremos uma greve geral bem longe dos pretextos como a apresentação dos orçamentos do Estado ou dos calendários eleitorais, para evitar ingerências de partidos políticos. Esses sempre podem ajudar e apoiar a greve, mas não utilizá-la para seus próprios interesses.

- Os abusos que sofremos no dia a dia nos locais de trabalho, a precariedade, o desemprego, as reformas trabalhistas, a perda de poder aquisitivo e o agravamento das condições de vida, junto com a atitude, cada vez mais despótica e prepotente da patronal, constituem por si só razão de sobra não só para uma greve, mas também para inúmeras.

- O atual nível de repressão por parte do Estado para com os movimentos sociais e sindicais não é mais que sua resposta natural em defesa dos privilégios das classes sociais que representa: políticos/as, banqueiros/as, empresários/as... Basta ver a recente prisão, em Madri, de 18 ativistas que lutavam contra os despejos e fizeram chegar seus protestos ao plenário municipal; ou a condenação penal de vários companheiros da mineração das Astúrias por defenderem condições mínimas de segurança em seu trabalho.

- Rechaçamos qualquer lei de greve, porque seu único objetivo real é eliminar de fato este direito, ou controlá-la e criminalizá-la, para anular o impacto de uma resposta operária aos ataques econômicos e políticos contra os/as trabalhadores/as.

- Defendemos os piquetes, o boicote e qualquer mecanismo que os/as trabalhadores/as utilizem para defender seus legítimos interesses.

- Denunciamos o falso discurso de direito ao trabalho quando só se utiliza e se apodera dele se existe uma convocatória de greve, convertendo-o em “letra morta” o resto do tempo. Direito ao trabalho sim, mas digno, para todos/as, e todos os dias. Basta de manipulações que encorajam os fura-greves, o medo e a divisão entre a classe trabalhadora.

- Entendemos que nenhuma mudança real é possível sem a participação e a mobilização da classe operária. Se pretendermos algo mais do que mudar a aparência do regime a participação da classe trabalhadora é imprescindível. De fato, constitui a única possibilidade real de quebrar o status quo favorável às oligarquias, tanto em nível estatal como europeu. Sem que a classe trabalhadora tome a palavra, não há saída para a Europa da austeridade, nem desse sistema nas mãos de oligarquias antissociais.

- Convidamos publicamente a se somar à manifestação e às colunas das Marchas da Dignidade, no dia 21 de março e nos dias precedentes, todas aquelas organizações sindicais e movimentos sociais, trabalhadores e trabalhadoras e cidadãos de bem que compartilham os objetivos básicos enumerados neste comunicado. Conscientes de que todos somos necessários e podemos contribuir neste processo de protesto social e de construção de uma greve geral real.

- Mobilizamo-nos por dignidade, porque está demonstrado que a luta é o único caminho.

- Não há mudança sem luta operária!

- Até a Greve Geral!

Bloco Combativo de Classe:
Alternativa Sindical de Trabalhadores (AST); Baladre; Confederação Geral do Trabalho (CGT); Confederação Nacional do Trabalho (CNT); Comissões de Base (COBAS); Coordenação Sindical de Classe (CSC); Intersindical de Aragón (IA); Sindicato de Assembleias da Saúde (SAS); Sindicato Único de Trabalhadores, Solidariedade Operária (SO).

* LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional)

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