2 de janeiro de 2015

A unidade pra lutar, a ofensiva da direita e o governo Dilma

Publicado no site nacional do PSTU em 2 de janeiro de 2015
Por Zé Maria*
Em quase tudo na vida, o que melhor define um indivíduo ou um grupo é o que ele faz e não o que fala. Em política as fronteiras entre uma coisa e outra é muito menos delimitada. O que se faz tem muita importância, mas também tem o que se fala. Fiquei pensando nisso quando lia uma nota divulgada pela direção do MTST (veja aqui) para “esclarecer” posição deste importante movimento social ante as especulações de setores da imprensa sobre sua participação em uma “frente de esquerda” que estaria dentro do campo político do governo Dilma, disputando “por dentro” os rumos do governo.

O resultado (e as circunstâncias) da vitória eleitoral de Dilma nas eleições recentes tem feito aflorar no cenário político nacional, com muita insistência, a discussão sobre a necessidade de “enfrentar a ofensiva da direita” que estaria crescendo e ameaçando “os direitos dos trabalhadores”. Organizações sindicais e movimentos populares ligados ao PT e ao PCdoB - CUT, UNE, MST, e outros de menor envergadura - tem buscado, em base a este pressuposto, construir a idéia de que o dever dos trabalhadores e da juventude (e suas organizações, obviamente) seria o de lutar contra esta direita que ataca o governo Dilma “para avançar sobre os direitos dos trabalhadores e da juventude”

Mais recentemente, o próprio Lula se somou a esta cruzada, falando em construir uma aproximação do governo Dilma com os movimentos sociais afirmando - sem conseguir disfarçar seu real objetivo - que o PT precisa disso se quiser ganhar as eleições em 2018. Os gestos recentes de Lula em direção ao próprio MTST tem este objetivo preciso. Afirmações publicadas na imprensa que apontam discordância de Lula com escolhas feitas por Dilma para seu ministério, ou que ele estaria defendendo um governo “mais à esquerda” não passam de contos da carochinha para que os que querem aderir à sua cruzada tenham uma desculpa.

A reunião chamada pelo MTST (que ocorreu em dezembro em São Paulo) acabou no meio deste debate. Presentes na reunião, CUT, UNE, MST e o próprio PT (além de outras organizações governistas) fizeram ecoar esta ideia, de que a tarefa central dos trabalhadores e suas organizações está no combate à direita e que, portanto, é necessário a união de todos. Uma primeira tarefa seria cobrar dos “direitistas” do Congresso Nacional a Reforma Política, apontada por estes setores como a panaceia que resolverá todas as aflições da classe trabalhadora brasileira.

Cobrados pelo representante da CSP-Conlutas presente na reunião, sobre o ajuste fiscal anunciado pela presidenta Dilma, responderam com silêncio. Cobrados sobre a proposta de PPE (Plano de Proteção ao Emprego) apresentada pela CUT ao governo - proposta, aliás, que foi rechaçada pelos operários da Volkswagen de São Bernardo do Campo em assembléia alguns dias antes - disseram ser “coisa da imprensa”. Dirigente do PSOL presente à reunião chegou a afirmar que “não era o caso de discutir ali as nossas diferenças, pois já as conhecíamos”.

Dilma ao de Renan Calheiros do PMDB no discuso de posse na Câmara
Não foi por implicância que o representante da CSP-Conlutas fez essas cobranças. Trata-se de ataques evidentes aos direitos dos trabalhadores e urge saber se a CUT, a UNE, o MST e outras organizações governistas que ali estavam tinham disposição de romper com o governo que apoiam para defender os direitos dos trabalhadores ameaçados pelo ajuste fiscal (ou pelo aumento dos juros, ou pela ausência de reforma agrária, e um longo etcetera). Quanto ao PT, qual é a posição que vale? Aquela que alguns de seus dirigentes dizem em reuniões como essa? Ou aquelas que são colocadas em prática pela presidenta da República em nome do seu partido? Urge saber se a CUT irá retirar de cena a sua proposta de PPE que, entre outras coisas, permite até redução dos salários dos empregados de empresas que estejam em “reais” dificuldades econômicas.

Enganam-se aqueles que julgam que ignorar estas contradições é melhor para “construir a unidade”. De qual unidade estamos falando? Da unidade para lutar em defesa dos direitos dos trabalhadores? Estamos 100% a favor. E esta luta, para ser consequente, terá de enfrentar sim, a direita tradicional do país representada pelo PSDB. Terá sim de denunciar e lutar contra a direitalha que domina o Congresso Nacional. Mas, para ser consequente, terá de começar por lutar contra o governo do PT, pois é este governo que está anunciando e tomando medidas concretas contra os direitos dos trabalhadores. Ou não é? A falta de clareza num debate como este não ajuda a unidade.

E há outro aspecto importante deste debate sobre a “direita que ameaça os trabalhadores”. A qual direita se referem? Não é uma pergunta retórica. Se houvesse, na realidade política do país, um levante real de algum setor da direita, em condições de dar um golpe contra o governo do PT, para atacar ainda mais os direitos dos trabalhadores, eu defendo que estivéssemos todos na primeira linha de batalha para derrotar esta ofensiva direitista e para defender nossos direitos. Mesmo isso implicando em luta para defender o direito do PT de exercer o governo que ganhou nas urnas. Falando francamente, esta ameaça não existe na realidade política do país.

Há sim uma direita que se manifesta cada vez mais no país, reação ao avanço das lutas sociais no país, particularmente a partir de junho/13, inclusive com uma pequena fração defendendo um golpe militar. É preciso, sim, combater duramente estes setores da direita, começando pela luta contra os governos estaduais chefiados por ela (como Geraldo Alckmin em São Paulo) e pela denúncia implacável de seus lideres, como Aécio Neves por exemplo.

Mas há outro setor da direita tradicional a ser combatido. É aquela que está no Governo Federal da Presidenta Dilma, do PT, e em sua base de sustentação no Congresso Nacional. Ou Joaquim Levy não é de direita? Vai chefiar o ministério da Fazenda. Ou Kátia Abreu (PMDB) não é de direita? Vai chefiar a pasta da Agricultura. Ou Armando Monteiro (PTB) não é de direita? Vai chefiar o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comercio. Ou Renan Calheiros, Collor de Mello, Paulo Maluf e outras perolas existentes na base de sustentação de Dilma dentro do Congresso Nacional não são de direita?

E estas figuras estão onde estão por obra e graça do PT, de Dilma Roussef e de Lula. De certa forma, são um emblema do que é o governo do PT e daquilo em que se transformou o próprio PT. É esse governo que governa o Brasil, e acaba de anunciar cortes de direitos na área do seguro desemprego, auxilio doença, pensão, etc, que vão retirar mais de 18 bilhões de reais/ano do bolso dos trabalhadores. Construir um processo de unidade para lutar em defesa dos direitos dos trabalhadores, que envolva a participação de organizações que apóiam este governo (ou o próprio partido do governo, no caso do PT) pressupõe definições básicas acerca destas questões.

Precisamos sim, lutar por mudanças no sistema político do país, mas não podemos fazer desta luta um escudo para proteger o governo que aplica uma política econômica que só favorece banqueiros, empreiteiras e grandes empresários; que não investe em políticas sociais e que ataca os direitos dos trabalhadores. É preciso sim denunciar as bandalheiras praticadas pela direita no Congresso Nacional, mas sem acobertar aquelas que são praticadas pelo próprio governo do PT.

A pergunta que se coloca é a seguinte: Qual a disposição destas organizações governistas em romper com este governo, e lutar contra ele para defender os trabalhadores?

Por isso acho que vai num bom sentido a preocupação da nota da direção do MTST. Num bom sentido, mas me parece ainda um pouco curta, do ponto de vista político. A nota diz que o movimento “vem esclarecer que não participa de qualquer frente de apoio ao governo. Estamos sim participando da articulação junto com a CUT, PSOL, MST, UNE e outras organizações da esquerda no sentido de construir uma frente de lutas com a plataforma de Reformas Populares para o país”... “Nosso objetivo é avançar nas mobilizações contra qualquer ataque aos direitos sociais e por uma pauta unitária de esquerda. Também enfrentar as ofensivas da direita brasileira. Mas para isso entendemos que é necessária a total independência em relação ao governo.”

A nota do MTST fala claramente da defesa dos direitos dos trabalhadores, mas tanto ela como as iniciativas que este movimento adotou até agora, incluindo a reunião citada, quando aponta o inimigo a ser enfrentado, não vai alem de nomear a “direita brasileira”. Isto é coerente com articular um ato político em defesa de reformas populares na posse do Congresso Nacional que, e isso é certo, está cheio de direitistas, ou um ato pela Reforma Política por ocasião da posse de Dilma.

Mas e o governo Dilma? E o ajuste fiscal (que já começou)? E a Reforma Agrária? E a Reforma Urbana? E a redução da jornada de trabalho sem redução salarial? E o fim das terceirizações, das privatizações? De quem cobramos isso, em primeiro lugar, senão do próprio governo do PT?

Está certo, portanto, o MTST, quando fala que é preciso “independência em relação ao governo”. Mas é preciso agregar que estamos diante de um governo claramente a serviço dos interesses do grande empresariado (o próprio MTST já escreveu isso várias vezes). E a única forma de praticar a independência frente a um governo como esse é numa luta sem trégua contra ele. Só assim, efetivamente, será possível estar ao lado dos trabalhadores, defendendo seus direitos e interesses. Esta não é uma discussão sobre semântica. É o debate que a esquerda da CUT levantou dentro da central, antes da ruptura que ocorreu em 2004 (que gerou a Conlutas). A direção da CUT dizia – e diz até hoje – que a central deve ter “independência em relação ao governo”. E, em nome disso, tem a prática que todos conhecemos.

Isto não quer dizer que nunca estaremos juntos na luta com a CUT ou outra organização/movimento governista. A CSP-Conlutas e outras entidades e movimentos que fazem parte do Espaço de Unidade de Ação estão convocando reunião para final de janeiro justamente para avançar na construção de uma plataforma e um plano de ação comum que permita a unidade de todos que quiserem lutar – contra o governo do PT e contra a direita - em defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores. Mas aí está um detalhe importante: todos que quiserem lutar contra o governo e a direita para defender os trabalhadores. A CUT, a UNE, o MST, todos estão chamados a esta luta. Mas terão de romper com o governo para empenhar-se em um processo de lutas contra ele. Todos terão de fazer sua escolha.

O próximo passo da articulação iniciada pelo MTST vai necessariamente se enfrentar com estes dilemas. A unidade para lutar é uma necessidade. Da mesma forma, é preciso saber junto com quem lutamos e contra quem lutamos. E voltamos aqui ao que dizia no início, sobre a importância do que se diz e a importância do que se fala.

O MTST é um movimento combativo e importante. Pode dar uma contribuição importante na construção da unidade que estamos buscando. É só uma questão de escolha.

*Zé Maria é metalúrgico e presidente nacional do PSTU.

Veja mais artigos no site nacional do PSTU.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui a sua opinião!

Marcadores