20 de agosto de 2014

Trotskismo significa proletariado industrial


Apresentamos a seguir um extrato de um artigo sobre a história da Liga Internacional dos Trabalhadores-Quarta Internacional (LIT-QI), escrito por Ronald León Nuñez e publicado em 2012, por ocasião da comemoração do aniversário de 30 anos da organização internacional da qual o PSTU faz parte. 


Esse artigo é inédito em português e foi publicado como introdução aos livros que contêm as resoluções e documentos da Conferência de Fundação e do Primeiro Congresso Mundial da LIT. Aqui estão retratados nossos primeiros passos, na Argentina, na década de 1940, e a concepção sobre a natureza operária dos partidos que queremos construir.
Tradução: Márcio Palmares

Nossa ligação com a classe operária

No início da década de 1940 o trotskismo argentino não passava de uma série de pequenos grupos dispersos. Sua atividade política se limitava a intermináveis reuniões carregadas de discussões acadêmicas sobre os mais diversos temas. O “centro” desse trotskismo pequeno-burguês, de características boêmias e contemplativas, eram os tradicionais cafés de Buenos Aires, entre eles o Tortoni. Nahuel Moreno caracterizou este ambiente estéril[1] dizendo: “Entre 1940 e 1943, o trotskismo argentino era uma festa”[2].
Neste contexto, até o final de 1944, Moreno e outros adolescentes fundam o Grupo Operário Marxista (GOM). O núcleo fundacional nasce em Villa Crespo, um bairro de Buenos Aires. Nahuel Moreno escreve então o documento intitulado “O Partido”, que seria o precursor da nova organização e no qual cristaliza uma decisão que se tornaria histórica e determinante para a nossa corrente e para todo o trotskismo operário: os membros do GOM abandonaram “a festa” dos círculos intelectuais que faziam “trotskismo de café” para se ligar estreitamente à classe operária. Naquele documento se lê: “Vamos nos colar ao movimento operário, nos aproximando e entrando nas organizações onde o movimento operário esteja, para intervir em todos os conflitos de classe”[3]. E assim, saíram da Villa Crespo e foram morar na Villa Pobladora, que era na época o principal centro operário e industrial da Argentina. O objetivo era se ligar intimamente à classe operária, fundir-se com suas lutas e até mesmo com seu modo de vida.
E eles não se saíram mal. Por volta de abril de 1945, esses jovens trotskistas estavam dirigindo uma impressionante greve na maior fábrica do país, o frigorífico Anglo-Ciabasa, com 15 mil operários. Moreno conta que, a partir dessa greve, “fizemos uma espécie de comuna em Avellaneda: desviamos o trânsito e ninguém podia circular sem um salvo-conduto do sindicato”[4]. Além de sua intervenção nos sindicatos dos frigoríficos, o GOM dirigia ainda a metade da comissão diretiva do sindicato da SIAM, na época a maior metalúrgica do país, além de ter orientado a fundação de vários sindicatos de muito peso, como a “Federação da Carne” e a “Associação Operária Textil”. Com o objetivo de entrar nas fábricas, o GOM avançou também em sua inserção dentro daquele bairro muito populoso, até o ponto em que Moreno chegou a ser presidente de um clube do bairro chamado “Corações Unidos”, que organizava festas, bailes e também cursos e palestras sobre as revoluções francesa e russa. Oferecendo cursos para os operários e entrando nos sindicatos, transformaram Villa Pobladora numa verdadeira fortaleza trotskista em meio à maré peronista que inundou o país a partir de 1945. Moreno diria a respeito:

“Fomos aqueles que disseram que o lugar preferencial para o trabalho dos trotskistas eram os sindicatos peronistas. Soubemos entender esse fenômeno decisivo. E fizemos isso sem capitular ao peronismo, porque denunciávamos o caráter totalitário e reacionário da burocracia sindical e do controle estatal que exercia sobre os sindicatos. Este acerto, em minha opinião, é a página fundamental que nosso grupo escreveu na história e a razão fundamental para que continue existindo até hoje: ter conseguido se ligar ao movimento operário”[5].

A importância deste acerto é histórica. O que esse punhado de jovens fez, muitos deles com menos de vinte anos, não é pouca coisa. Num meio em que o “normal” era conviver entre os diletantes dos cafés portenhos, largar tudo para ir trabalhar e militar nos sindicatos dos frigoríficos não era para qualquer um. Os jovens do GOM poderiam muito bem ter adotado outra orientação, por exemplo, entrar na universidade, algo que naquela época era muito mais fácil de conseguir do que hoje. Mas eles escolheram outro caminho, o mais difícil. Haviam entendido o mais importante: entenderam que sem ligação com a classe operária não existe trotskismo[6]. Fizeram a primeira coisa e a mais fundamental que se deve exigir de um revolucionário: ser parte da classe operária. E as coisas são assim porque o programa do trotskismo é o programa da classe operária mobilizada, a mobilização permanente da classe operária, democraticamente auto-organizada, é a sua razão de ser.
Desde que giramos para Villa Pobladora não nos separamos mais da nossa classe. O morenismo ficou indissoluvelmente ligado à classe operária, ao trotskismo operário. Neste sentido, a batalha em todos os terrenos para que a IV Internacional estivesse ligada à classe operária foi uma constante em nossa corrente internacional. Foi uma polêmica eterna com a direção de Pablo e Mandel que, por seu caráter pequeno-burguês e intelectual, não confiavam na força revolucionária da classe operária e terminavam capitulando a qualquer direção burocrática, nacionalista burguesa ou pequeno-burguesa que dirigisse um grande processo de luta ou uma revolução.
Primeiro capitularam ao stalinismo, impressionados pelo enorme prestígio adquirido pela URSS e pelo Kremlin a partir da derrota no nazi-fascismo e da exprepriação da burguesia no Leste europeu, quando Pablo criou a teoria de que a “terceira guerra mundial” entre o imperialismo norte-americano e a URSS era inevitável e iminente e que os partidos stalinistas, para defender os estados operários burocratizados, iriam fazer uma revolução internacional. A revisão era completa: concediam um caráter revolucionário ao maior aparato contrarrevolucionário já visto pela história. Coerentemente, deram a linha de que os partidos trotskistas da Quarta deveriam se dissolver e entrar nos partidos stalinistas (que iriam fazer uma revolução), não para criticá-los, e sim para aconselhá-los nesse processo. O resultado foi catastrófico. Depois desse “entrismo” de 17 anos, a maioria do trotskismo europeu que aplicou essa linha praticamente desapareceu. Mais ainda: no terreno da política, Pablo e Mandel chegaram a se opor às impressionantes mobilizações antiburocráticas que eram parte da revolução política contra as ditaduras dos partidos comunitas, como a que foi travada pelos operários da Alemanda oriental em 1953.
A resultante imediata dessa linha capituladora e liquidacionista, como vimos anteriormente, foi a traição à revolução boliviana de 1952.
Enquanto o trotskismo revisionista vivia de capitular ao stalinismo, a Tito, a Mao, à direção castro-guevarista e sua orientação foquista para a América Latina, à vanguarda estudantil radicalizada surgida durante o Maio de 1968 na França, ao eurocomunismo e ao sandinismo, nossa conrrente fazia de tudo para se inserir no movimento operário, em seus locais de trabalho, postulando-se sempre como alternativa de direção revolucionária para suas lutas. Moreno explicava a razão para isso assim:

“O trotskismo dá certo apenas com o proletariado (...) Seu programa é essencialmente operário. É o programa que a classe operária deve aplicar para conduzir todos os explorados do mundo. Por isso o trotskismo deve acompanhar o movimento operário, como a sombra acompanha o corpo”[7].

Essa é a compreensão teórico-política que orienta nossos esforços militantes. Somos aqueles que querem estar ao lado da nossa classe e construir, a partir de suas lutas mínimas, uma direção revolucionária em seu seio. Estamos convencidos de que toda revolução em que a classe operária não tenha o papel de protagonista —mesmo que tal revolução chegue a romper com o imperialismo e expropriar a burguesia— está condenada ao isolamento e ao retrocesso. É por isso que nossas seções fazem todos os esforços para intervir no movimento operário. Nossa própria debilidade ou uma determinada situação da luta de classes e/ou do movimento sindical podem nos obrigar a aplicar outras táticas, como a construção, por um curto período, no movimento estudantil, mas sempre com o objetivo estratégico de ser parte do movimento operário, sobretudo de seus batalhões pesados e de seus setores mais explorados.
Neste sentido, em nossa história, além do caso argentino, temos o exemplo dos jovens militantes colombianos, que foram intervir nas concentrações operárias de seu país. Ou o caso do partido espanhol quando concentrou suas forças em Getafe, um dos mais importantes centros industriais de Madri. Ou o de outro grupo de estudantes, brasileiros, quando intervieram nos processos de lutas operárias do ABC, o imenso complexo industrial de São Paulo, onde participaram de sindicatos e dirigiram oposições contra a burocracia sindical, no marco da fundação do PT e da CUT, onde as teses defendidas por trotskistas da Convegência Socialista nunca tiveram influência menor do que 10% dos delegados.
Na atualidade, os militantes da LIT-QI cumprem papeis destacados nos processos de reorganização sindical de países como o Brasil e o Paraguai, além de um renovado esforço sobre o movimento operário europeu.
No entanto, nossa obsessão por nos ligar e dirigir os processos vivos da luta de classes, do movimento operário e de massas, nunca nos levou a rebaixar o programa trotskista. Para “encontrar o caminho das massas” não nos tornamos peronistas, castristas, sandinistas ou, agora, chavistas, lulistas, kirchneristas ou luguistas. Queremos romper o caráter minoritário e de vanguarda —e muitas vezes marginal— que atualmente tem o trotskismo e trabalhar para construir partidos com influência de massas, como parte da IV Internacional reconstruída, mas não ao preço de nos transformar no oposto do que devemos ser. Seremos a maioria dentro do movimento operário a partir de uma combinação de elementos objetivos e subjetivos favoráveis, mas sempre nos marcos do programa trotskista e com o mesmo critério de Lenin: flexibilidade e audácia nas táticas, inflexibilidade e intransigências nos princípios.
É um caminho difícil? O trabalho no seio do movimento operário e de massas é um trabalho árduo e cinzento? Certamente sim. Mas é o único que conduz à revolução socialista mundial. Por isso, não buscamos nem buscaremos atalhos. Se a luta de classes nos impõe, seguiremos nadando contra a corrente com o mesmo otimismo e com a mesma confiança revolucionária na força criadora da nossa classe, que sempre nos caracterizou. A esse respeito, convém compartilhar a reflexão feita por Moreno pouco antes de sua morte em 1987:

“Não há meios de enganar o processo histórico e de classe [...] Me refiro ao caráter de classe. Nós tratamos de dirigir o proletariado, jamais nos afastamos deles. Isto não é declamação, é uma política internacional de classe que deriva de uma análise teórica profunda. Não há truque político que a substitua. De nada adianta mentir, dizer aos camponeses que somos camponeses, com o objetivo de fazer uma revolução operária. Se a classe operária não vem conosco, não chegamos a lugar nenhum. Nos burocratizamos, capitulamos ao campesinato... É inconcebível fazer uma revolução proletária sem o proletariado [...].
Ao longo de minha vida política, depois, por exemplo, de observar com simpatia o regime que surgiu da Revolução Cubana, cheguei à conclusão de que é necessário continuar com a política revolucionária de classe, mesmo que atrase nossa chegada ao poder por vinte, trinta anos ou quanto for preciso. Nós queremos que a classe operária chegue ao poder verdadeiramente, por isso queremos dirigi-la”[8].






[1] Parafraseando o escritor norte-americano Ernest Hemingway, que escreveu “Paris é uma festa”, um livro de memórias de sua vida intelectual e boêmia na Paris da década de 1920. (N. do T.)
[2] CARRASCO, Carmen; CUELLO, Hernán. Esbozo biográfico de Nahuel Moreno. Revista Correo Internacional, edición especial, enero 1988. p. 7.
[3] Idem, p. 8.
[4] Idem, p. 9.
[5] Idem, p. 9.
[6] Todas as passagens destacadas em negrito foram destacadas pelo tradutor. (N. do T.)
[7] MORENO, Nahuel. Conversando com Moreno. São Paulo: Editora Sundermann, 2005. p. 63.
[8] MORENO, Nahuel. Conversando com Moreno. São Paulo: Editora Sundermann, 2005. pp. 64-65.

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