21 de agosto de 2014

“Precisamos mais investimentos e melhores condições de trabalho”


Com a palavra, as trabalhadoras da saúde!
Na semana passada, o PSTU entrevistou duas trabalhadoras da saúde em Curitiba. O objetivo era dar voz a quem está no coração de um dos serviços mais importantes para a sociedade paranaense e brasileira: o que realiza o cuidado com a vida das pessoas.

Helena Silva, para o PSTU Curitiba


As entrevistas revelaram aquilo que muitos de nós já desconfiavam: quem trabalha na saúde, tanto pública como privada, sofre com longas jornadas de trabalho, baixos salários, poucos direitos, com falta de estrutura e insumos. Além disso, a maioria desses profissionais mora na região metropolitana e periferias de Curitiba, e se submete todos os dias ao sufoco do transporte público. É possível conhecer um pouco da jornada desse importante setor da classe trabalhadora, formado majoritariamente por mulheres, muitas delas mães solteiras e/ou chefes de família.

Em um ano eleitoral, quem olha para a situação dessas trabalhadoras entende o quanto as falsas promessas e os partidos políticos indignam e revoltam. Afinal, para elas é mais um ano de mentiras. Ao mesmo tempo, pelas falas destas duas trabalhadoras, se expressa uma posição rica em possibilidades de mudanças.

Em sua experiência na área saúde, essas trabalhadoras observaram que apesar de toda a propaganda midiática, o sistema público segue como referência para o que deve ser o atendimento digno à população e administração isenta. Para ambas, a saúde não deve ser vista como mercadoria que dá lucros, mas sim como um direito.

Da mesma forma, para o PSTU a saúde deve ser pública, 100% estatal e estar à serviço dos trabalhadores. Além disso, todo o seu sistema deve ser administrado e controlado pela população, trabalhadores/as da saúde e usuários/as.

Assim como nossas duas entrevistadas, não acreditamos que isso virá por meio da vitória nessas ou em outras eleições. Apenas a luta organizada, de baixo para cima, será capaz de levar adiante um projeto de saúde que trate o trabalhador e o usuário da saúde com a dignidade e o respeito merecidos.


HS. Conte um pouco sua história, como você se tornou trabalhadora da saúde? O que exatamente você faz?  

A.R. Tenho 49 anos e sou divorciada. Tenho quatro filhos que criei sozinha, pois sou divorciada há quinze anos, dois hoje casados e dois solteiros e tenho quatro netos Sempre tive dois ou três empregos para sobreviver, criar meus filhos e pagar o aluguel. Hoje, trabalho em dois empregos e faço horas extras para sustentar minha família. Trabalhei um ano como auxiliar de cozinha e, depois, me tornei enfermeira. Há 13 anos trabalho como técnica de enfermagem, sempre no turno da noite para ganhar um pouco mais com o adicional noturno. Já trabalhei no Hospital do Trabalhador, na Maternidade de Pinhais, no Hospital de São José dos Pinhais, no Hospital Erasto Gaetner, no Hospital Vita BR, no Hospital do Idoso, no Hospital Cajuru e na Home Care. Há 2 anos comprei minha casa própria pelo Programa Minha Casa Minha Vida do governo.

S.S.S. Tenho 43 anos, sou casada há 23, e tenho quatro filhos, dois casados e dois solteiros. Tenho 1 neto. Antes, eu trabalhava em salão de beleza. Há oito anos atrás fui para área de saúde por admirar minha mãe que trabalhava na área há quase 30 anos. Meu primeiro emprego foi como estagiaria no Hospital do Trabalhador e no Hospital Geral da Fazenda Rio Grande, depois trabalhei com saúde ocupacional por quaro anos no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Depois disso, trabalhei no Hospital do Idoso e no Hospital Vitoria. Trabalho com os dois extremos da vida, os idosos e na pediatria.


HS. Uma pesquisa recente, chegou-se à conclusão de que a saúde pública é o assunto sobre o qual os brasileiros tem maior descontentamento com os governos. Como trabalhadora e usuária da saúde, você concorda?

A.R. A marcação de exames é demorada, faltam muitos materiais para prestar atendimento aos pacientes. As Unidades de Pronto Atendimento (UPAS) estão sempre cheias. O principal argumento usado para essa situação é dizer que os hospitais não tem vagas, mas isso é dito mesmo quando tem. A qualidade do atendimento é praticamente a mesma no sistema público e privado. No privado, as pessoas também tem que esperar e as filas são grandes. Eu já presenciei pacientes morrem na fila por falta de atendimento. Faltam muitos profissionais principalmente técnicos de enfermagem e pessoal qualificado. Além disso, hoje em dia as escolas estão formando muito mal, os trabalhadores chegam no serviço e não sabem o que fazer.

S.S.S. É visível que os políticos estão voltados para si próprios, eles estão voltados para a ascensão pessoal. O investimento em saúde não sai da propaganda, ele não existe de fato. Em Araucária, onde eu moro, o Hospital Municipal fechou as portas. A administração era feita por uma fundação, que por sua vez alegou que a prefeitura não fazia o repasse das verbas. Isso é a decadência da saúde.


HS. Muitos brasileiros e brasileiras reclamam que o SUS não consegue prestar atendimento público de qualidade. A saúde é prioridade? O que precisaria mudar?

A.R. A prioridade é a Copa do Mundo, de prioridade a saúde não tem nada! No município de Fazenda Rio Grande, se uma gestante der a luz a um bebê que precise de Unidade de Terapia Intensica (UTI) neonatal, a criança tem que ser transferida para outra cidade, Campo Largo. No Jardim Veneza (bairro de Fazenda Rio Grande), onde eu moro, o postinho de saúde é bem pequeno, é uma casinha no quintal da Igreja e só tem um médico para atender a toda a comunidade. Remédio lá diz que não tem, enfermeiras apenas três e sem experiência nenhuma. Para conseguir uma consulta, é preciso chega às 4 horas da manhã e pegar senha, independente da idade, se é adulto ou criança. Faça sol ou chuva, só disponibilizam 10 senhas de atendimento durante todo o dia. Apenas as consultas com as gestantes são agendadas com prioridade. Falta material e medicação. Quando eu trabalhava no Hospital Erasto Gaetner, me sentia  mal ao ver os pacientes esperando em longas filas, amontoados, sem ter um local adequado para ficar.

S.S.S. Não é prioridade mesmo! Os políticos fazem muita propaganda, mas depois vira pizza. Cada vez estou mais desacreditada, tenho sonhos, mas é difícil até mesmo para escolher um candidato. Em Araucária, por exemplo, o concurso publico na área da saúde foi realizado durante a campanha eleitoral, há dois anos, e até hoje os trabalhadores aprovados não foram convocados. Por aí você percebe que não existe investimento.


HS. Este é um ano eleitoral, período em que se debatem os programas de governos e as propostas para o país. Na sua opinião, o que um programa comprometido com a saúde da população brasileira deve apresentar nessas eleições?

A.R. O governo precisa dar mais atenção a saúde, investir mais dinheiro, investir nos trabalhadores, aumentar os salários, e não desviar o dinheiro da saúde para outros fins. Dizem que investem tanto dinheiro em saúde, mas a gente nunca vê. Esse dinheiro deve estar sendo usado para outros fins.


S.S.S. É preciso melhorar a formação dos profissionais, que estão vindo despreparados. É preciso ter mais aulas práticas durante sua formação. Os trabalhadores tem experiência, mas falta conhecimento técnico, entendimento de qual sua função o que está fazendo ali. É preciso também melhorar os salários para que os trabalhadores da saúde em geral, para que não se desdobrem em jornadas duplas e triplas de trabalho. Isso combate assim o stress, já que o excesso de trabalho influencia na qualidade de vida do trabalhador e na qualidade de atendimento ao usuário. É preciso, também, reduzir a jornada de trabalho. 

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