14 de julho de 2014

FIFA já vai tarde pra Suíça

“Teve Copa” no Brasil, sim. E ela acabou, enfim. Até alguns meses atrás, o signo deste evento mundial sediado pelo Brasil, era incerto e cercado de polêmicas e tensões na sociedade brasileira. Olhando retrospectivamente alguns fatos em torno do evento, o que se sobressai é uma sensação de frustração e insatisfação.


O Brasil, bem sabemos, não foi nada bem. Mas não é só do time da camisa amarela que falamos, mas da situação geral do país que, para sediar o evento esportivo mais popular, abriu os flancos para o capital internacional e suas “filantrópicas” empresas mundiais.
Esta história começou em 2006, depois que a CONMEBOL escolheu o Brasil, em prejuízo da Argentina e Colômbia, para representar a América do Sul na disputa por sediar o evento. Desde então, Blatter, presidente da FIFA, sinalizou o grande interesse em trazer o evento ao país. Logo nas primeiras visitas técnicas, apontavam a necessidade de modificações estruturais em estádios, acessos terrestres, aeroportos, e um largo etecetera, que dariam pano para manga. A FIFA estabeleceu uma relação direta com o Governo Lula/PT e este por sua vez declarou diversas vezes que estavam dispostos a tudo para realizarem uma Copa do Mundo no Brasil.
Em 31 de outubro de 2007 quando a FIFA anunciou o Brasil como país sede da Copa de 2014, não havia nenhum estádio adequado ao evento, e as exigências de transformações estruturais nas cidades eram grandes. Seguiu-se uma corrida contra o tempo para adequar o país aos interesses do evento e seus possíveis investidores. Esta avalanche de cimento e pressa brilhava aos olhos de empreiteiras, e uma infinidade de empresas interessadas em lucrar com a pressa do governo brasileiro e da FIFA.  A ganância de clubes, investidores, empreiteiras, prefeituras, empresários e a sede propagandística do Governo PT deslancharam em paralelo à superfaturação de obras, injeção espetacular de recursos públicos e isenção de impostos às empresas. O que se viu foi uma sucessão de absurdos que passaram pelo desalojamento de milhares de famílias até as dezenas de acidentes em canteiros de obras da Copa por todo o país.
O governo anunciou o PAC II, batizado como PAC da Copa, e passou a relacionar a realização do evento com melhorias diretas que ocorreriam na infraestrutura do país, um suposto “legado” que a Copa traria, como justificativa política para os gastos absurdos e concessões políticas que fariam nos anos seguintes. Mas a ‘marolinha’ da crise econômica mundial chegou ao Brasil e o desaquecimento na economia mostrou seus dentes. As “Obras da Copa” que inicialmente vinham como sinônimo de valorização, melhorias e modernização, foram aos poucos se tornando motivo de desconfiança na população. Diante dos atrasos, altos custos e desorganização e acidentes nestas obras, ainda em 2012 conhecemos o jargão popular: “imagina na copa”. 
No projeto Matriz de obras para a Copa, a mobilidade urbana era a vedete. Foram anunciados 12 bilhões em investimentos para o transporte. Fizeram parecer que haveria uma revolução da mobilidade nas cidades-sede: plano de novos metrôs, VLT’s, BRT’s, estradas, vias rápidas, modernização de aeroportos, ficaram no papel. Os cortes de verbas vieram justamente nas obras que mais interessavam a população. A própria NTU (Agência Nacional de Empresas de Transporte Urbano), na figura de seu presidente Otávio Cunha afirmou que os investimentos não chegaram a 80% do anunciado. Muitas obras foram deixadas de lado ou adaptadas. A solução foi diminuir o fluxo intenso de usuários adotando feriados em dias de jogo, e a medida paliativa de criação de faixas exclusivas para ônibus.
Transporte caro, ruim e lotado, salários baixos, comida cara, trânsito caótico, educação sucateada, a saúde em frangalhos, dinheiro desviado, estádios hiperfaturados, esquemas de fraude, bairros sitiados. Para a FIFA e sua Copa, tudo. Para o povo, nada. A população foi às ruas em 2013 contra o aumento dos transportes e as péssimas condições de vida, a resposta do governo foi repressão. Os governos federais e estaduais e até algumas prefeituras mostraram sua disposição em tratar o descontentamento popular na pancada.
2014, o ano da Copa do Mundo mais cara da história (R$27bi) começou com o freio de mão puxado. Enquanto a população se dividia entre os ansiosos pelo torneio e os que não o queriam, o arroxo salarial e cortes de verbas corriam soltos por todo o lado. No entanto, para concluir as obras atrasadas surgiram impressionantes investimentos e empréstimos de recursos públicos. A intensificação do ritmo nas obras, as péssimas remunerações, e condições duvidosas de segurança, desabaram em forma de acidentes de trabalho: foram 14 acidentes graves nestes 7 anos, causando 11 mortes e 8 feridos só em obras de estádios.
O primeiro semestre do ano pareceu um campeonato de greves, em que a disputa era por qual categoria era mais mobilizada, ou qual greve era mais forte e duradoura. O jornal Folha de São Paulo criou até um “Protestômetro” para medir as manifestações, lutas sindicais e populares que estouravam Brasil a fora. Quando a bola rolou pela primeira vez na Arena do Itaquera em São Paulo, o saldo negativo da “Copa das Copas” já era evidente e só não via quem não queria ou tinha interesses no sucesso do evento. Três dias antes da partida de abertura a polícia militar de Alckmin cercou o Sindicato dos Metroviários que se manifestavam em greve, demonstrando o significado da Lei Geral da Copa: para garantir o mega-evento esportivo os governos subtraíram os direitos dos trabalhadores. A partida de abertura começou com um gol contra do time brasileiro, simbolizando bem a situação que o Governo, a CBF, FIFA e seus acionistas, criaram para a população.
A copa do mundo, em si mesma, como realização esportiva, não determina diretamente a luta de classes, quiçá influencie o humor das massas diante do regime de turno. Mas é sem dúvida um reflexo, um espelho distorcido da realidade social, do contexto político e das relações entre as nações e suas burguesias, hoje. O clima de “mundo reunido” e característica do espetáculo de massas que o futebol é, poderiam sim proporcionar uma grande manifestação de cultura internacional-popular através do esporte. Mas não é o que se passa na realidade com o grande evento da FIFA, a multimilionária empresa suíça. Sua Copa do Mundo sempre foi um evento popular da cultura burguesa, o grande estimulador da profissionalização do futebol mundialmente e da industrialização da ‘cultura da bola’. Hoje é uma expressão bem acabada da internacionalização da cultura no período neoliberal, e da gana do Capital por lucro fácil a custas de Estados sedentos por investimentos internacionais.
No Brasil o primeiro semestre deste ano foi de muitas greves e lutas mostrando, como um termômetro, a insatisfação da população. Diante disso a Copa foi enfiada goela a baixo como um evento vitorioso e bem organizado, em uma articulação impressionante entre o Governo, a Rede Globo, a FIFA e seus satélites. Blatter, Dilma e uma dezena de empresários pareciam mais tensos que os 201 milhões de brasileiros diante da frágil equipe de Felipão. Esconderam-se atrás de um mirabolante arsenal policial e midiático, desviando a insatisfação das ruas para a frente das TV’s e dos debates de Bola. O time da CBF contou com a sorte contra o Chile para passar às quartas de final. Logo depois mais uma contravenção foi exposta: o executivo Raymond Whelan, ligado a FIFA, o mega-cambista Mohamed Lamine, e mais 9 pessoas coordenavam a “Máfia dos Ingressos”, que lucrava em torno de 1 milhão por partida. Evidenciando o caráter do evento, Ray, como é conhecido o empresário amigo da FIFA, foi solto menos de 8 horas depois. Em novembro de 2013, o PROCON havia alertado que mais de 6 milhões de pessoas cadastradas nos sorteios para compra de ingressos não foram informadas sobre as etapas e critérios de seleção. A AFA (Associação de Futebol Argentina) também informou que a maioria dos ingressos para partidas da Copa estavam sendo vendidos a grandes empresas de viagem para revenda em pacotes milionários, ou distribuídos a patrocinadores. Também houveram outras 21 prisões ligadas a Copa no Rio e em São Paulo, mas eram manifestantes contrários à realização do evento e o tratamento foi bastante diferente: agressões, inquéritos secretos injustificáveis, e 1 rapaz que segue preso a 1 ano no Rio, por portar uma garrafa de “PinhoSol” durante um ato contra as injustiças da Copa.
Inevitavelmente estava ocorrendo a Copa e na partida de quartas de final o escrete canarinho ensaiou uma retomada de fôlego na vitória sobre a Colômbia, um dos destaques da primeira fase. Mas dois eventos quase simultâneos metaforizaram mais uma vez o significado desta Copa. O desabamento de um viaduto em Belo Horizonte, construído pelo PAC da Copa e finalizada às pressas em 2014, e a fratura na vértebra de Neymar o único craque do time da CBF. Totalmente desconexos a princípio, os dois fatos se relacionaram, nos dias seguintes. A mídia passou a uma ensurdecedora campanha de apoio ao jovem jogador lesionado silenciando sobre o óbvio: a Copa do Mundo da FIFA parecia mesmo ruir sobre nossas cabeças. O fato de passarmos às semifinais sem o craque foi o coringa da mídia para distrair a população diante da tragédia desenhada. Sequer o massacre genocida de Israel sobre a Palestina tomou destaque diante da lesão de Neymar.
O futebol, no entanto, espetáculo de massas que é, tem as particularidades do drama, e isso nem a FIFA, nem o PT ou a CBF puderam controlar. O gramado mais uma vez protagonizou uma metáfora perfeita da Copa das Copas: uma goleada histórica de um gigante sobre um anão pretensioso. Os 7 x 1 que o time da CBF levou simbolizaram na arena uma realidade que governo e mídia tentam esconder. Os esforços por aparecer como “grande nação em desenvolvimento”, se esbarram contra a realidade de uma nação efetivamente desenvolvida. A vitória alucinante do futebol da Alemanha sobre o brasileiro é apenas alegoria sem graça que nos alerta o sentido do imperialismo na sociedade e na cultura.
Acabou a Copa e o time da Alemanha, algoz latino-americano, foi o campeão. Cercada de grandes investimentos e de um futebol objetivo e eficiente, superou o valente time argentino, também fragilmente apoiado em um único herói. Acabou a Copa das mortes dos operários, da corrupção, dos lucros estrondosos para empresas estrangeiras, da ganância das empreiteiras, da repressão e ausência de direitos. Acabou a Copa da FIFA e do PT. Ela sintetizou a farsa do novo desenvolvimentismo brasileiro e sua face neoliberal. Colocou-se de joelhos ao Capital internacional que implacavelmente submete a periferia a lamber as botas diante de sua potência irresistível.

Nós trabalhadores, irremediavelmente, acordaremos pra trabalhar todos os dias. Seguem nossos péssimos salários e condições de vida, segue também a paixão pelo futebol que cada vez mais é uma mercadoria, uma moeda de troca a nossas reais necessidades. Passou a Copa e o que fica é a certeza da necessidade da luta organizada dos trabalhadores contra a farsa e a exploração que governos e patrões nos impõem diariamente. A vida dura segue, e FIFA já vai tarde pra Suíça.

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