16 de julho de 2014

Copa do Mundo: sobre bombas, prisões e cassetetes

Fonte: EBC
Acabou a Copa do Mundo, e apesar da diminuição em cerca de 38% do números de manifestações ao redor do país, segundo dados do Protestômetro da Folha de São Paulo, pudemos dizer que na Copa teve luta. Além disto, na primeira semana pós-Copa já brotam novas greves, hoje com os rodoviários de Brasília e os médicos de Natal.


por Eric Gil, da comunicação do PSTU Curitiba
Os protestos, em sua maioria, tiveram caráter anti-Copa ou contra as injustiças causadas pela organização do evento. No entanto, também houve espaço para grupos contra opressões também se manifestarem, como aconteceu na Boca Maldita, em Curitiba, no jogo entre Rússia e Argélia, quando houve panfletagens e palavras de ordem contra a homofobia a qual ganhou, inclusive, a simpatia de vários argelinos que transitavam no local e que até pararam e escreveram em cartazes apoiando a luta.
Mas e as greves? Na construção civil a forte greve se deu em Fortaleza, onde depois de dez dias parados, os operários arrancaram da patronal um reajuste salarial de 9% (ou 3,6% de aumento real) e 38% de aumento da cesta básica, que subiu de R$ 65 para R$ 90.
No entanto, se formos procurar um setor protagonista nesta Copa ainda foi o ligado aos transportes, agora não mais metroviários, e sim rodoviários, como em João Pessoa, Curitiba e Natal.
Fonte: Blog da Joice
A melhor experiência foi na capital paranaense, onde houve a catraca-livre. No dia 26 de junho, ainda na primeira fase, no dia do já referido jogo Rússia x Argélia, os cobradores de Curitiba estavam em greve e cruzaram os braços, mas mantendo as catracas livres. O dia ficou para a história, como o 26 de junho onde o curitibano não pagou para ter o seu direito garantido, o direito ao transporte.
Nem todas as manifestações foram ganhos para quem compõe os movimentos sociais no país.
Em Porto Alegre a represália chegou antes da Copa, e teve a acusação de militantes do Bloco de Luta pelo Transporte Público como alvo, incluindo o militante do nosso partido e da ANEL, Matheus Gomes.
Mas na maior parte da Copa o centro desta represália foi em São Paulo. Começou dias antes da Copa com a demissão de 42 metroviários grevistas. O Ministério do Trabalho, por avaliar como abusiva estas demissões, multou o Metrô em 8 mil reais – uma multa patética, principalmente se comparada aos 900 mil reais que o Sindicato iria pagar por não manter 100% do metrô funcionando em horário de pico e 70% no restante do tempo (multa esta que o Sindicato conseguiu, ontem, derrubar).
E não ficou por aí, no quinto dia de greve, em um ato em solidariedade aos metroviários, o estudante Murilo Magalhães foi preso e torturado pela Polícia Militar de São Paulo. Murilo foi obrigado a ficar nu e, por ser homossexual, foi vítima de humilhações de cunho homofóbico, como xingamentos de “veado”. Ele ainda foi espancado pelos agentes e apresentou uma série de lesões por todo o corpo.
Por fim, na capital paulista, começaremos a falar sobre prisões. Os primeiros a entrarem na nostalgia de nossos governos com a ditadura civil-militar. Seu início foi a prisão, em 23 de junho, de Fábio Hideki Harano, 27, e Rafael Marques Lusvargh, 29. Fábio é funcionário da Universidade de São Paulo, onde também estuda, e milita no sindicato dos funcionários da USP.
Só que o melhor tem que ficar para o final, claro. Le grand finale! E como não poderia deixar de ser, se deu na sede da final da Copa do Mundo. No sábado, um dia antes da final, 37 pessoas foram detidas na capital carioca pela Polícia Civil do estado, 16 foram libertadas depois de dar depoimento, as outras 21 permaneceram presas.
Em um lapso de Tom Cruise, o qual em Minority Report o ator representou um agente do governo que prendia pessoas as quais futuramente cometeriam crimes, o governo carioca pôs atrás das grades diversos militantes de movimentos sociais para que ocorresse tudo bem no encerramento da Copa. Ou seja, o governo do Rio previu que estes militantes iriam cometer crimes (que crime? Se manifestar?) e os prenderam.
E pra fechar esta Copa com chave de ouro, não faltou o que a PM mais gosta de fazer: soltar bombas e algumas leves cacetadas. A PM-RJ utilizou-se da chamada “kettling”, ou “envelopamento”, estratégia que serviu para cercar manifestantes na Praça Saens Peña, na Tijuca, e que impediu a saída de mil manifestantes para o estádio do Maracanã, onde planejavam se manifestar.
Veículos nacionais e internacionais mostraram as barbaridades feitas pela PM-RJ, indo do clássico espancamento de manifestantes e quem mais estivesse por lá ao roubo de material jornalístico, como foi o caso do jornalista canadense Jason Ohara (o policial que praticou o crime já foi identificado através de filmagens das pessoas que presenciaram a cena).
Legado da Copa? Parece que o estado de exceção será um legado que durará bastante tempo, pois lembremos que daqui a dois anos o Rio irá sediar mais um megaevento, as Olimpíadas. Se a justiça e a polícia cariocas já abriram antecedentes agora, imagina nas Olimpíadas!

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