26 de junho de 2014

Copa do Mundo no Brasil: o machismo é que venceu!

Karen Capelesso para PSTU Curitiba




No dia 16 de junho foi publicado no portal da Folha de São Paulo o artigo de opinião “As brasileiras ganham com a Copa", escrito pela atual Ministra de Estado e Chefe da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci. Neste texto, a Ministra utiliza vários dados para demonstrar o quanto as brasileiras estão ganhando com a Copa do Mundo da FIFA no Brasil. De acordo com ela, as mulheres ganham com o aumento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, os investimentos em melhorias no transporte público e em infraestrutura das cidades que ajudariam a combater a violência contra a mulher e a abertura de postos de trabalho ocupados em sua maioria por mulheres.
Ao mesmo tempo em que seleciona de maneira pouco precisa alguns dados e não explicar de que forma estes de fato melhoram a vida das brasileiras, Menicucci omite números importantes, significativos para o balanço do impacto da Copa do Mundo nesta área. Há um ano, uma série de manifestações massivas nas ruas do Brasil questionou o investimento público na Copa do Mundo em detrimento de diversas áreas sociais. Em um país que ocupa, por exemplo, o 8º lugar mundial no ranking de analfabetismo, com cerca de 13 milhões de brasileiros/as maiores de 15 anos que não sabem ler e escrever – em sua maioria mulheres – é curioso que a Ministra não perceba o contraste entre os R$ 11.172,40 gastos com cada assento dos estádios da Copa, ao passo que o gasto anual por aluno da Educação Básica no Brasil fica na casa dos R$ 5.000,00. Isso sem não falar em investimentos na saúde, transporte, moradia...
Quem assiste aos jogos da Copa vê muitos lugares vazios nas arquibancadas, e cada um deles poderia ser substituído pelo financiamento de um ano para dois novos estudantes na Educação Básica. Esse investimento teria grande impacto na vida das mulheres brasileiras, mas para falar dele seria preciso criticar o mundial. E, isso, Menicucci não faz em uma linha de seu artigo. Dados alarmantes que dizem respeito à vida das brasileiras não são levados em conta pela Ministra da Secretaria e Políticas para as Mulheres. Sabe-se que nosso país é o 7º no ranking de mortes de mulheres no mundo. Estima-se que a cada 2 minutos, 5 mulheres sejam espancadas e que, a cada 12 segundos, uma mulher seja estuprada no país da Copa do Mundo. Estes dados são de conhecimento geral, expressando uma triste realidade que perdura ano após ano. Se, novamente, compararmos com gasto público de mais de 11 mil reais com cada cadeira dos estádios da Copa e o gasto anual por brasileira para o combate a violência machista (R$ 0,26), veremos que a prioridade deste campeonato não foi, em nenhum momento, fortalecer as mulheres.
O cenário é pior ainda, já que se sabe que a violência tende a aumentar durante o mundial. Estudos realizados pela Brunel University de Londres, juntamente com outras instituições de pesquisa, demonstraram que na Copa do Mundo na África do Sul em 2010 houve um aumento de 63% nos casos de exploração sexual infantil e de 83% no número de ocorrências de abuso sexual contra mulheres. Na Copa da Alemanha, em 2008, não foi diferente, os abusos contra crianças aumentaram em 28% e contra as mulheres em 49%. Em 2014, o que esperar de uma Copa do Mundo em um país cuja estrutura para o atendimento das mulheres vítimas de violência é precária, já que somente 10% dos municípios brasileiros possuem delegacias especializadas e 1% possuem casa-abrigo? Se o governo queria que as mulheres “ganhassem com a Copa”, por que não agiu para que esta não seguisse a regra das anteriores?
Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil está no topo do ranking do turismo sexual na América Latina e é segundo país no mundo com o maior índice de exploração sexual infanto-juvenil, perdendo somente para Tailândia. Das doze cidades-sede da Copa no Brasil, cinco são campeãs em denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes. Além de estar na rota internacional do turismo sexual, da exploração sexual e do tráfico de pessoas, a Copa do Mundo no Brasil projetou a sexualidade e a mercantilização do corpo da brasileira para o mundo. O que foi feito contra isso efetivamente? Na mídia nacional e internacional se multiplicam notícias sobre redes de prostituição atuando livremente nos arredores dos estádios, e nas festas oficiais da FIFA.
Justamente por não combater o turismo sexual, o governo abriu espaço para que, na grande mídia, a exploração sexual ganhasse ares de “contos de fada”. A naturalização do país do sexo-mercadoria, da mulata como objeto sexual, do país encantador para gringos afoitos, tem sido a tônica de mais esta Copa do Mundo. A aprovação da Lei que transforma a exploração sexual de crianças e adolescentes em crime hediondo é inócua, já que não existe uma estrutura para que se possa de fato combater o turismo sexual. Em Manaus, por exemplo, que em 2013 registrou 3.592 denúncias de exploração sexual infanto-juventil, existem apenas uma delegacia especializada e um abrigo superlotado. Em que as mulheres ganham com a Copa do turismo sexual?
A Ministra Menicucci comemora a vitória das mulheres na Copa do Mundo usando dados econômicos questionáveis e exaltando as poucas propagandas governamentais para estimular a denúncia à violência. Sua declaração é decepcionante para quem está cotidianamente na luta em defesa dos direitos das brasileiras a uma sociedade justa e livre da opressão. Uma lição importante que toda mulher aprende quando levanta a cabeça para enfrenta o machismo e as desigualdades é que, ao olhar para a realidade, é preciso fazê-lo sem medo e sem calar. As mulheres sabem que esta Copa e estes governos não estão ao seu lado na luta contra a opressão. Para todas as brasileiras que dependem dos serviços públicos, que necessitam de saúde e educação, de moradia e trabalho dignos, que estão morrendo devido à negligência contra a violência a mulher. Para as mulheres pobres frustradas pelas promessas vazias de governos, patrões e exploradores, para as que caem nas armadilhas do turismo sexual, para as mães, filhas, irmãs. Para todas essas brasileiras, quem ganhou a Copa do Mundo foi o machismo.

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