12 de junho de 2014

Balanço de uma greve sufocada: é preciso retomar a organização independente e democrática dos trabalhadores da saúde!

por Helena Silva, para PSTU Curitiba







Na noite de terça-feira passada, 03 de junho, Enfermeiros, Técnicos de Enfermagem, Assistentes Administrativos e outros profissionais dos hospitais privados e filantrópicos de Curitiba realizaram uma assembleia e decidiram entrar em greve. A reivindicação da categoria era de 15% de aumento no salário base, garantia do vale alimentação no valor de R$ 400,00 e do adicional de insalubridade calculado a partir do salário base. Atualmente, esta categoria é representada pelo Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Curitiba e Região (Sindesc), cuja direção é composta por sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT).
A mobilização e os piquetes começaram no dia seguinte, às 6h00 da manhã, e a adesão da categoria foi forte, com destaque para o Hospital Cajuru e o Hospital do Idoso Zilda Arns. Ao longo do dia, trabalhadores de outros hospitais foram aderindo espontaneamente, tais como o Pequeno Príncipe, Santa Casa de Curitiba, São Vicente, Angelina Caron, San Julian, Marcelino Champagnat, Hospital das Nações, Nossa Senhora das Graças e Erasto Gaertner. Todos esses hospitais tiveram suas atividades parcialmente paralisadas e muitos trabalhadores se somaram às atividades da greve.
Apesar de sua curta duração de dois dias – a greve foi sufocada pela patronal e, infelizmente, pela própria direção do Sindesc  – essa pode ser considerada uma mobilização histórica dos trabalhadores e trabalhadoras da saúde. A vontade de lutar é uma realidade comprovada nesta categoria, e está colocado, de maneira irreversível, o desafio de sua organização forte e independente pela base.
Só volto a trabalhar com salário padrão Neymar!
No primeiro ato da greve, na quarta-feira, sob o som ensurdecedor de vuvuzelas – aquelas cornetas popularizadas na Copa da África do Sul – os trabalhadores caminharam pelo centro da cidade, protestando por melhorias nas condições de trabalho e pelos direitos de quem sua a camisa todos os dias e noites nos hospitais de Curitiba. O barulho das cornetas não era expressão da torcida pelo Brasil nos jogos da Copa, mas sim um grito para chamar atenção da sociedade para esta luta. Durante o ato, era impossível não associar esta luta aos protestos que tomaram o país de assalto há exatamente um ano atrás.
Se em junho de 2013 a população em geral, formada por centenas de milhares de usuários do SUS, gritavam “Queremos hospitais padrão FIFA!”, agora chegara a vez dos trabalhadores e trabalhadoras da saúde carregar esta bandeira. Dois momentos únicos pareciam se encontrar: o junho das massas nas ruas se unia ao junho das greves. Agora, de certa maneira, a Copa do Mundo ficava para trás, como mera coadjuvante do protagonismo popular.
A greve da saúde em Curitiba aconteceu durante a campanha salarial da categoria, porém o que também motivou a mobilização foram questões mais amplas. O mal estar que resultou na greve foi resultado da sobrecarga de trabalho, combinada com os baixos salários, endividamento e impacto da inflação nas contas do mês. Para completar, a indignação com os bilionários investimentos de dinheiro público na realização da Copa do Mundo, que as trabalhadoras e trabalhadores não podiam nem comparar com seus holerites. “Só volto a trabalhar com o salário do Neymar!”, uma das palavras de ordem cantadas durante a greve, refletia exatamente este conjunto de sentimentos.
Há muito se sabe que na área da saúde, tanto nos hospitais públicos como nos privados, não existem as condições necessárias para um atendimento de qualidade. Isso se deve ao fato de que, de maneira geral, a lógica da saúde como mercadoria predomina na administração dos hospitais. Essa lógica diz que é preciso sempre atender mais com menor custo e quem sofre são os trabalhadores e a população. A maioria dos que trabalham em hospitais da capital paranaense não conseguem fechar o mês com apenas um emprego; por isso, trabalham em vários hospitais e de maneira extenuante, já que é comum a falta de funcionários nas escalas. Além disso, os trabalhadores da saúde muitas vezes não são capazes de oferecer um atendimento digno à população, pois faltam leitos, medicamentos, materiais e até mesmo roupas de uso hospitalar.
Greve da saúde: uma luta das mulheres trabalhadoras
Assim como em todo Brasil, as mulheres são maioria esmagadora entre os trabalhadores da área da saúde em Curitiba. Esse peso ficou evidente na mobilização da semana passada, sendo que muitas grevistas precisaram deixar filhos e família em casa para lutar. Elas sabiam e não cansavam de repetir que estavam na luta para dar melhores condições de vida a seus filhos. “Se o aumento der para comprar mais uma caixa de leite e um conjuntinho de roupas pro meu filho no fim do mês, essa luta já valeu a pena”, declarou uma trabalhadora.
As mulheres trabalhadoras da saúde fizeram greve pois seus salários são baixos, e também por que sentem que ser mulher é um fator de dupla e tripla exploração na sociedade em que vivem. A opressão a que estão submetidas dentro dos hospitais é permanente. As enfermeiras, por exemplo, trabalham quatro vezes mais do que seus colegas médicos, ganham muito menos do que eles e estão submetidas a uma hierarquia que muitas vezes não possui justificativa técnica. Este é um fato que explica a intensidade com que as trabalhadoras desta categoria adoecem por depressão e outras doenças psicológicas.
O fim da greve
No segundo dia de greve, na quinta-feira, aproximadamente metade de toda categoria parou. Esta foi uma vitória histórica da mobilização. Obrigou, por exemplo, o Hospital Cajuru a interromper novas entradas de pacientes, já que os serviços de urgência e emergência também decidiram aderir. Na Santa Casa, por volta de 40 cirurgias eletivas foram canceladas, já que os trabalhadores exigiram seus direitos. No Hospital São Vicente, 9 das 22 cirurgias agendadas foram canceladas e 70% dos trabalhadores aderiram a greve, adesão impressionante à mobilização. No Hospital Pequeno Príncipe, incríveis 75% dos trabalhadores da UTI e 70% do Centro Cirúrgico  pararam para lutar.
Neste mesmo dia foi marcada uma reunião de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT 9ª). A prefeitura e os donos de hospitais estavam preocupados. Em um grande ato com participação de 700 pessoas, o movimento grevista marchou da praça Rui Barbosa seguiu até o TRT. Enquanto os trabalhadores permaneciam em um auditório, os representantes do sindicato entraram na reunião, apenas para ouvir que a patronal negociaria a pauta da categoria. A reunião durou sete horas e os grevistas lá permaneceram, ansiosos por conquistas, por ter ao menos parte de suas demandas atendida. Ao final, a direção do Sindesc deu a notícia: a patronal oferecia para a greve acabar um aumento imediato de 6,8% (menos da metade do exigido), 10% para trabalhadores que hoje ganham apenas o piso salarial e R$ 300,00 de vale alimentação. Nada foi mencionado sobre o adicional de insalubridade.
Agora, vale reler os dois parágrafos anteriores e comparar. Com mais de 70% de mobilização da categoria em uma greve histórica, não seria possível ir além do que menos da metade das nossas exigências? Por que desistir de uma greve histórica na primeira proposta da patronal? Foram essas mesmas perguntas que a base da categoria se colocou quando a direção do Sindesc fechou qualquer canal de diálogo e colocou para votação, às 22h00 da noite, a proposta. Ao invés de fortalecer a mobilização da base, a direção do sindicato passou 7 horas em piquenique com a patronal, enquanto os trabalhadores esperavam. Ao retornar, fez a categoria engolir o fim da greve com 6,8% de aumento com ameaças (!) de que os trabalhadores poderiam ser presos se continuassem a luta.
Traição, fé e luta
Traição foi a marca desta greve, e isto foi sentido por todos os trabalhadores e trabalhadoras presentes na assembleia. A maioria, com medo e insegura, votou a proposta da direção e a greve foi encerrada. Muito trabalhadores religiosos, especialmente cristãos evangélicos, chegaram a tomar a palavra para pedir que os demais fizessem orações para que Deus desse uma solução ao conflito. Afinal, independente de credo, todos trabalhadores da base sabiam que o que o Sindicato encaminhava da mesa era uma afronta aos seus anseios. O sentimento com o fim da greve não era de alegria, mas de frustração, e muitos diziam: “enfrentei frio e chuva para isso?!”.
A greve da saúde de Curitiba durou pouco, não saiu nos jornais como deveria, não ganhou espaço de destaque nos noticiários de televisão, que preferiram repetir notícias-propaganda sobre a Copa do Mundo. Apesar disso, foi uma greve histórica, capaz de mobilizar pra valer um dos setores mais precarizados da classe trabalhadora da cidade. Foi uma greve popular e fortemente reivindicativa, o que significa que a base tinha vontade de ir além de uma rodada de blá-blá-blá, já que esta conversa é bem conhecida nos corredores dos hospitais.
Apesar da fé e da vontade de lutar, esses trabalhadores esbarraram naqueles que mais deveriam confiar, seus representantes legítimos. As lições que tiramos disto são muito importantes.
A primeira delas é que não é possível continuar lutando e vencendo se à frente do movimento não estiver uma direção política realmente afinada e comprometida com os anseios da base.
A segunda é que se esta direção pretende estar próxima aos trabalhadores, não se furtará em oferecer a eles todo o espaço necessário, toda a prioridade para que esses possam ser o verdadeiro motor do movimento.
A terceira, e talvez a mais fundamental e conclusiva, é que se a direção que está à frente desta greve age contra a própria mobilização, evidenciando seu distanciamento da mesma, este é um sinal claro de que não existe senão uma direção formal. Esta pode aparentar força e grandiosidade, mas estes são apenas truques estilísticos. Sua estrutura está corrompida e, com algum esforço sério e dedicado de organização na base, é possível superá-la.

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