9 de junho de 2014

Alagamentos padrão FIFA em Curitiba!

Foto: Portal Paraná-Online
Chuvas atingem 15 mil pessoas na cidade e região metropolitana a poucos dias da Copa do Mundo.

por Diane Muste para PSTU Curitiba
No último sábado, chuvas intensas deixaram várias cidades paranaenses em baixo d’água. Em Curitiba, 15 mil pessoas foram afetadas pelos alagamentos, especialmente em bairros populares da cidade e região metropolitana. As regiões mais próximas ao rio Barigui (CIC, Tatuquara e Fazendinha) e aos rios Belém e Iguaçu (Hauer, Boqueirão e Uberaba) foram as mais atingidas. Na Região Metropolitana, os municípios de São José dos Pinhais, Pinhais, Piraquara, Colombo, Araucária e Almirante Tamandaré também foram atingidos.
Esta história se repete há anos. Às vésperas da Copa do Mundo, este é mais um exemplo de que os governos e prefeituras preferem oferecer grandes quantidades de dinheiro público para os grandes empresários e a FIFA, enquanto a população precisa fugir de casa para não morrer afogada e pegar doenças. Nenhuma das grandes obras realizadas pela prefeitura de Curitiba para a Copa o Mundo beneficiou as famílias que sofrem com as chuvas. Abrigos foram improvisados enquanto o Poder Público, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros demoraram e, em alguns lugares, negligenciaram por completo o atendimento aos atingidos, segundo inúmeros relatos de moradores.
É senso comum entre especialistas que a expansão urbana da região metropolitana de Curitiba a partir dos anos 1970, consequência da industrialização parcial e mecanização da agricultura (que estimulou a migração para os centros urbanos), é um dos maiores desafios sócio-ambientais. É também uma constatação comum entre os pesquisadores interessados no desenvolvimento da nossa cidade o completo descaso com a coleta e organização de informações relevantes a respeito da vida local, entre elas as informações referentes ao problema dos alagamentos.
As informações mais confiáveis são obtidas no registro feito pelos próprios moradores, que ligam para o telefone 156 para acionar a Defesa Civil. Outra opção é procurar notícias na imprensa que noticia, filma e fotografa e os alagamentos e seu impacto, como mortes, deslizamentos, vias interditadas e protestos contra a prefeitura. Além de declarar um “estado de alerta” pouco convincente, a prefeitura de Curitiba pouco faz a não ser lamentar as chuvas.
Apesar disso, o fato é que os alagamentos fazem parte da realidade dos curitibanos. São registrados por volta de 400 casos a cada ano, concentrados na sua maioria no período entre novembro e março. Isso significa que as chuvas impactam a vida do município cotidianamente e não podem ser tratadas como algo excepcional, mas sim como um problema que exige profundas mudanças na estrutura urbana. Um dado bastante visível das pesquisas sobre alagamentos e inundações em Curitiba é que existem os bairros “campeões” do impacto das chuvas, aqueles situados às margens do Rio Belém (ao leste da cidade) e Rio Barigui (a oeste).
Em termos demográficos, isso corresponde à região onde se situam bairros como o Cajuru, Uberaba, Boqueirão, por um lado, e Cidade Industrial, Fazendinha e Campo Comprido, por outro. Esses bairros (com exceção do Boqueirão e de partes do Uberaba) correspondem exatamente àqueles cuja ocupação urbana é mais recente, especialmente a partir dos anos 1980, impulsionada pelo ciclo de expansão industrial e mecanização agrícola. Como outros bairros periféricos, são regiões de habitação popular, alguns marcadamente operários, com fraca aparelhagem urbana (hospitais, bibliotecas, praças, centros culturais, escolas, etc.) e afastadas do centro da cidade. Além disso, são regiões em que a população vive assombrada pela inundação e alagamentos facilitados pelas cheias dos rios que margeiam.
Por sua localização, os bairros mais pobres são justamente os mais afetados pelas chuvas, mas os alagamentos são consequência da ausência de uma estrutura urbana eficiente e adequada para enfrentar as características destas regiões. Isso se soma ao fato de que quando a prefeitura investe dinheiro público nas periferias de Curitiba, o faz quase que exclusivamente para aumentar o policiamento, enquanto todos os outros aspectos da vida nestes bairros são negligenciados.
Os alagamentos em Curitiba não são, portanto, tragédias provocadas pela natureza. São resultado do descaso sistemático das autoridades pública com a segurança e condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade. Além disso, são o efeito mais visível do problema das chuvas em Curitiba, mas a ele podemos somar a quedas das redes de luz e telefone, a disseminação de doenças, os deslizamentos e desmoronamentos e a piora do já caótico transporte público. Não enfrentar os problemas das chuvas é deixar de lado problemas que atingem mais diretamente à população trabalhadora.
A uma semana da Copa do Mundo, a população curitibana foge de casa para não morrer afogada. Nenhuma obra, nenhuma alternativa realmente eficaz é proposta para melhorar a moradia dos bairros que margeiam rios. Nenhuma política realmente profunda, nem sequer um plano, foi apresentado para superar de vez o problema dos alagamentos. Enquanto isso, a prefeitura do PDT e PT comemora gastos de mais de R$ 570 milhões de reais em obras da Copa do Mundo em Curitiba, sendo R$ 220 milhões apenas para reformar a Arena da Baixada. Ao que parece, o alagamento padrão FIFA é o verdadeiro legado desta Copa!
Desespero, revolta e protestos espontâneos nos dias de alagamentos na CIC
Manifestação no Contorno Sul
No sábado, o sentimento de indignação tomou conta da população e ganhou as ruas em quase todos os pontos alagados da cidade, especialmente na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Alguns moradores da CIC reclamavam, revoltados, que mesmo depois de ligar para relatar que suas casa estavam inundadas, não eram atendidos pela Defesa Civil.
A solidariedade entre os próprios moradores foi o que ajudou a deslocar e abrigar quem teve a casa alagada. Em outro ponto do bairro, moradores atearam fogo em pneus e interditaram a rua Desembargador Cid Campelo e a BR-376 para protestar, e só saíram do local com o compromisso de serem atendidos pela prefeitura.
Foi registrada a morte de um trabalhador aposentado por afogamento no bairro, sendo esta a oitava morte em consequência dos alagamentos no estado do Paraná. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA/CIC), os pacientes e trabalhadores da saúde enfrentaram a falta de luz. Por volta de 20 pacientes precisaram ser transferidos para outras UPA e Hospitais de Curitiba. No fim da tarde, moradores do bairro ocuparam as instalações da UPA da Vila Barigui, ainda sem luz, para exigir atendimento e a polícia foi chamada para reprimir os manifestantes.

Vídeo
Um morador da CIC compartilhou no Facebook a ação truculenta da PM, numa demonstração de que o Estado, ao invés de socorrer e prestar auxílio à população atingida pelas inundações, está mais preocupado em reprimi-la. Confira:


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