10 de março de 2014

Dois poderes na Ucrânia

Ronald Léon, da LIT
O processo revolucionário na Ucrânia tornou-se um dos mais avançados em todo o mundo. A luta heróica do povo ucraniano, iniciada em novembro passado, obteve no dia 22 de fevereiro  uma imponente vitória: a queda do governo assassino e oligárquico de Yanukóvich.





Mas o mais impactante é como se deu a derrubada do odiado governante e a situação política que se abriu a partir desse fato. Entre os dias 18 e 22 de fevereiro, os manifestantes da praça Maidán e suas improvisadas milícias de auto-defesa derrotaram todas as tentativas das Berkut (forças especiais de repressão) para quebrar a espinha dorsal do movimento; provocaram a ruptura da cadeia de comando das Forças Armadas, dividida entre reprimir ou não os manifestantes, e no sábado, 22, entre a fuga desesperada de Yanukóvich e sua “destituição” da Rada Suprema (parlamento), ocuparam e passaram a controlar os edifícios públicos mais importantes, como a casa presidencial, o Banco Central e os principais ministérios de Kiev, abrindo uma clássica situação de dualidade de poderes.

Um dos principais motores da revolução ucraniana, além da crise econômica e das medidas bonapartistas do ex-governo de Yanukóvich, é a luta contra a histórica opressão nacional russa, que tem expressões econômicas, políticas e culturais. Essa opressão nacional está personificada atualmente na política despótica de Putin para todos os países que a oligarquia russa considera como parte de sua “área de influência” e que, no caso ucraniano, as massas identificaram, com razão, a Yanukóvich como o principal agente do Kremlin. Portanto, a queda do tirano de Kiev é uma derrota direta de Putin.

As lições desse novo processo revolucionário para a esquerda mundial são fundamentais. Neste artigo pretendemos expor uma primeira análise do processo revolucionário e arriscar algumas perspectivas.

Uma semana sangrenta

A mobilização de Kiev obteve duas conquistas importantes no final de janeiro: a primeira foi a demissão do primeiro ministro Azarov e a segunda, a anulação das draconianas leis anti- protestos, forçando a Rada a retroceder e aprovar uma nova anistia geral para todos os presos políticos.

No marco dessa anistia e de um acordo entre Yanukóvich e a oposição parlamentar (A Pátria, UDAR e Liberdade[1]), o governo liberou centenas de presos e, no dia 16 de fevereiro as sedes da Prefeitura de Kiev e outras sedes administrativas da capital foram evacuadas. Também foram evacuadas as sedes do governo central em Poltava (centro do país) e nas regiões de Ivano-Fránkovsk, Lvov e Ternópol, todas no oeste da Ucrânia. A oposição se comprometeu também a liberar o acesso à rua Grushevski, no centro de Kiev.

Mas a praça Maidán continuou ocupada pelos manifestantes, exigindo a destituição de Yanukóvich e a anulação da Constituição atual (reformada em 2010) para ser substituída pela de 2004, que restringia os poderes do presidente.

Cabe ressaltar, como explicamos em artigo anterior[2], que pelo menos desde a aprovação das leis anti-protestos em janeiro, o centro das reivindicações deixara de ser a integração ou não à União Européia (UE) para centrar-se na saída do governo.

No marco de uma “calma” cheia de tensão, o 18 de fevereiro, data em que começou a escalada repressiva de Yanukóvich,  convocou-se uma sessão da Rada que, em princípio, deveria debater sobre a vigência da Constituição de 2010 e, portanto, dos poderes do presidente. Mas o bloco parlamentar do oficialista Partido das Regiões (PR) não quis tratar do assunto, argumentando que a proposta da oposição não havia sido registrada com o número suficiente de assinaturas para tal.

Essa manobra do odiado partido governante desatou a ira na Maidán. Milhares de pessoas armadas com paus e coquetéis molotov e protegidas com escudos e capacetes, partiram da praça central para tomar a Rada. Não conseguiram, mas tomaram o Clube dos Oficiais, um edifício militar em frente ao legislativo. Nesse mesmo dia, outra multidão invadiu e incendiou a sede do Partido das Regiões.



A “trégua” chegara ao fim

O governo de Yanukóvich havia mudado a política, muito provavelmente por orientação de seus amos de Moscou. O ex-presidente deixou de lado seu discurso baseado na “necessidade de diálogo”, abandonou a relativa “vacilação” entre negociar ou reprimir, e partiu para a repressão total e o esmagamento físico do movimento de massas em luta.

Yanukóvich anunciou que “os extremistas da oposição cruzaram a fronteira” e acusou os manifestantes de “criminosos” e “bandidos” que empreendiam a “luta armada” para “tomar o poder”. O Kremlin se pronunciou nos mesmos termos.

Às oito da noite do dia 18 de fevereiro, as Berkut (“Águias”) armadas com fuzis automáticos e reforçadas com carros blindados, iniciaram o cerco da praça Maidán e o governo iniciou a tentativa definitiva de sufocar o protesto. O saldo daquela noite foi de 26 mortos. Yanukóvich desatara uma ofensiva sem retorno.

No dia seguinte, diante das mortes e com o país à beira da guerra civil, a UE e o imperialismo norte-americano “condenaram a violência” e anunciaram “possíveis sanções” contra o governo de Yanukóvich e seu pares. De certa forma, essas ameaças aprofundaram a crise nos setores da oligarquia que mantinham o governo, pois temiam ver suas fortunas congeladas nos bancos do exterior.

A Rússia, por sua vez, se oferecia para mediar e “pacificar a situação”, ao mesmo tempo em que subia o tom de suas acusações, responsabilizando pela violência os “extremistas” da Maidán que, segundo o Kremlin, promoviam “um golpe de Estado contra um governo legítimo”.

A Maidán, que não havia sido desalojada devido a uma resistência heróica que durou toda a noite, recebia mais e mais manifestantes, de todas as idades e provenientes de distintas regiões do país. Yanukóvich havia declarado a guerra e o movimento não recuaria.

O povo mobilizado, aplicando o direito de legítima defesa, começou a buscar os meios para armar-se. Assim, em Kiev, Ternópol, Lvov e Ivano-Franko foram ocupadas as sedes do Ministério do Interior e de outros órgãos de segurança, como a Delegacia.

Crise no Exército e armamento da população

Em 20 de fevereiro, a cifra de mortos já superava os oitenta, dezenas deles, policiais. O país, envolto na mais profunda crise política, amanhece com um anúncio do Ministério de Defesa de que o Exército iria intervir na “pacificação” de Kiev com uma “operação anti-terrorista”.

Yanukóvich, disposto a tudo para manter-se no poder, deu outro passo em seu delírio repressivo e convocou as Forças Armadas para reprimir e recuperar o controle da Maidán e dos edifícios públicos da capital. Era evidente, a essa altura, que as Berkut haviam sido derrotadas em suas tentativas de quebrar a resistência popular na praça.

Essa medida evidenciou uma fratura na cadeia de comando, inexplicável se não se entende a força dos golpes que o processo revolucionário contra toda a estrutura de poder burguês. O então chefe do Estado Maior, general Vladimir Zamana, negou-se a intervir com tropas sobre a marcha foi destituído por Yanukóvich. O substituto foi o almirante bielorruso Iuri Ilín, considerado um “homem que cumpres ordens”.

No entanto, a crise na alta cúpula militar era mais profunda e já havia mostrado seus primeiros indícios em janeiro. No dia 17 desse mês, o general Guennadi Vorobiov, comandante em chefe do Exército de Terra, também foi destituído depois de haver protestado contra as leis repressivas decretadas por Yanukóvich. Outros chefes de várias regiões militares também foram destituídos de suas funções[3].

Mas a divisão no alto comando do Exército expressava, por sua vez, uma ruptura mais profunda. A questão é que o grosso do efetivo das Forças Armadas está formado pelo serviço militar obrigatório de recrutas. Os soldados nos quartéis expressaram seu repúdio a uma eventual repressão contra a população. Em alguns casos, recrutas chegaram a mobilizar suas mães e familiares para que se manifestassem diante dos quartéis contra o envolvimento do Exército na repressão[4].

Yanukóvich só conseguiu mobilizar duas unidades de pára-quedistas em Kiev, fundamentalmente com a missão de salvaguardar os depósitos de armas da capital.

Mas, ainda assim, os ativistas já haviam conseguido reunir uma boa quantidade de armas. Para se ter uma idéia, o chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia, Vladimir Borovko, informou que, entre os dias 19 e 20 de fevereiro, 267 pistolas, 2 carabinas, 3 metralhadoras, 92 granadas e 15.000 balas haviam caído nas mãos dos manifestantes em Kiev[5].

O porta-voz do Ministério do Interior, Serguéi Burlakov, confirmou que em Ivano-Franko, Lvov, Rovno e Ternópol os manifestantes tinham mais de mil armas. Nessa última cidade, os Berkut locais entregaram as armas e passaram para o lado dos manifestantes[6].

Com a paralisia do Exército e a polícia superada, os manifestantes consolidaram suas posições e começaram a avançar. Os grupos de auto-defesa lançaram uma contra-ofensiva e ocuparam novos prédios públicos, como o edifício da Casa da Ucrânia.

Em torno da Maidán, convertida em front de guerra, os franco-atiradores de Yanukóvich  atiravam contra os manifestantes. Mas isso tampouco ajudava militarmente o governo. A resistência da Maidán era feroz. A essa altura, os organismos de auto-defesa haviam feito “prisioneiros” mais de setenta policiais de elite e reprimido centenas de provocadores infiltrados.

A situação de Yanukovich piorava minuto a minuto. O prefeito de Kiev, Vladímir Makeenko, do Partido das Regiões, renunciou ao cargo e rompeu com o partido. Ao mesmo tempo, cerca de trinta deputados do Partido das Regiões romperam com o governo, em uma clara demonstração de que o governo estava afundando.

O pacto entre Yanukovich e a oposição parlamentar

Sem poder controlar os protestos, que haviam derrotado as Berkut, e com o Exército dividido, Yanukovich tenta voltar atrás e cede à pressões de Obama, da UE e do próprio Putin, que exigiam um acordo que evitasse o colapso total do regime. Assim, em 21 de fevereiro, Yanukovich e a oposição parlamentar concordaram em: 1) restaurar a Constituição de 2004 em 48 horas; 2) formar em 10 dias um governo de “unidade nacional”; 3) antecipar as eleições presidenciais antes de dezembro de 2014.

Toda a oposição (A Pátria, UDAR e Swoboda) concordou e se comprometeu a abandonar os prédios públicos e devolver as armas que haviam sido pegas pelos manifestantes.

Num ato solene, os líderes da oposição parlamentar se transferiram para a sede presidencial e ali assinaram o documento de acordo junto com Yanukovich, diante do olhar complacente dos representantes da UE (que a essa altura havia suspendido qualquer tipo de sanção) e de Vladimir Lukin, enviado especial de Putin.

O ato concluiu com um aperto de mão entre Yanukovich e Vitaly Klitschko, líder do partido UDAR, e apresentado como uma vitória do “diálogo”. Rapidamente, um total de 386 deputados (dos 450 da Câmara) votou a favor do plano na Rada. O Parlamento votou também uma nova anistia para os implicados na última onda de violência e a favor da destituição do odiado ministro do Interior, Vitali Zajárchenko.

As partes pareciam estar, se não satisfeitas, ao menos aliviadas. Para eles, tudo parecia levar à pacificação da situação e Yanukovich sentia a corda apertar menos o pescoço. Só faltou entrar em acordo com a Maidán.

A Praça passa por cima do acordo

A notícia do acordo, ao contrário das pretensões de Yanukovich, da oposição parlamentar e dos diplomatas europeus e russos, foi recebida com suma desconfiança pela Maidán.

Nesse momento percorreu o acampamento dos manifestantes um vídeo do ministro do Exterior da Polônia, Radoslav Sikorski, ameaçando que o dilema para os ativistas era “apoiar ou morrer”: “Se não assinam isso, terão um estado de exceção e o Exército e todos vocês vão morrer”. Na praça, os líderes da oposição parlamentar defenderam a aceitação do mesmo e a desmobilização. Mas o veredicto da Maidán foi outro. E os líderes da oposição, como Arseni Yatseniuk (A Pátria) e Oleg Tiagnibok (Swoboda) foram vaiados na praça e praticamente expulsos aos gritos de traidores! Vitali Klichkó (UDAR) teve de pedir perdão por haver apertado a mão de Yanukovich[7].

A questão é que, depois de três meses de intensa luta e mais de cem mortos, o processo revolucionário não teme retorno. Milhares de manifestantes decidiram permanecer na praça até que Yanukovich fosse derrotado e detido por seus crimes.

“Querem que a gente se disperse e depois volte? Nada disso, a Maidán estará aqui até que Yanukovich saia. A Maidán resistirá. Yanukovich deve entregar todos os seus poderes imediatamente, porque este é o primeiro presidente que verteu sangue na história da Ucrânia”, dizia um membro do grupo de auto-defesa ao jornal El País[8]. A final de contas, segundo o acordo firmado, as eleições presidenciais seriam celebradas em dezembro o mais tardar. Isso significaria uma concessão mínima em relação às eleições presidenciais regulares que deveriam ocorrer no início de 2015.

Por que esperar? Por que confiar? Fora Yanukovich já! Tal foi o raciocínio predominante entre os manifestantes, que se sentiram fortes depois de derrotar a repressão.

A praça havia desarmado a armadilha da “negociação” que salvaria Yanukovich, passando por cima não só do governo como de toda a oposição parlamentar, dos imperialismos norte-americano e europeu, e da Rússia.



O duplo poder

Diante dessa situação, tanto as Forças Armadas como a polícia, abandonaram Yanukovich definitivamente à sua própria sorte. Os efetivos das Berkut, que montavam guarda na Rada, se retiraram da capital, derrotados e humilhados pelo povo. Em sua penosa retirada, ao passar pelo povoado de Brovarski, perto de Kiev, um ônibus carregado de Berkuts que saía da capital foi baleado e saqueado por manifestantes.

O comando do Exército, no qual Yanukóvich depositava suas últimas esperanças de salvação, declarou que “as Forças Armadas da Ucrânia são leais às suas obrigações constitucionais e não podem ser destroçadas por um conflito interno”[9].

Yanukovich viu como eminente o colapso de seu governo e, temendo inclusive por sua integridade física diante de um avanço decisivo dos manifestantes enfurecidos, fugiu de Kiev. Primeiro, tentou sair do país, mas como não conseguiu, resolveu ir para Járkov, no leste.

Yanukovich foi derrubado pela ação das massas nas ruas e, nesse momento, Kiev estava controlada pelos manifestantes e as brigadas de auto-defesa na praça Maidán.

Não havia presidente, nem policiais nem militares nem instituições, nada. Os manifestantes armados haviam ocupado a casa presidencial, os principais ministérios e o Banco Central. Milhares invadiram a mansão suntuosa de Yanukovich e a indignação diante da obscena ostentação do tirano só fez crescer a fúria popular.

No sábado, 22 de fevereiro, abriu-se uma crise revolucionária, um vazio de poder, mesmo que o movimento de massas não tivesse consciência disso, e nem condições de reverter essa crise a seu favor, sobretudo pela ausência de uma direção revolucionária. A oligarquia ucraniana, em estado de completo desespero, apressou-se em ocupar o vazio de poder por meio da Rada. O parlamento, que foi cercado mas não ocupado pelos manifestantes, passou a ser a única via institucional que restava à oligarquia para tentar resolver a crise revolucionária.

Por isso, a ritmo vertiginoso e sem qualquer formalismo, 328 deputados votaram pela “destituição” (ele já havia caído) de Yanukovich e convocaram “eleições antecipadas” para 25 de maio. Nomearam Alexandr Turchínov, ligado ao partido A Pátria, de Yulia Timoshenko, como chefe do Parlamento e um fantasmagórico Executivo “até conformar um governo de unidade nacional”. Como ministro de Defesa assumiu o general Vladímir Zamanov, aquele que fora destituído por Yanukovich; nos serviços de Segurança ficou o almirante Valentín Naliváichenko, que já ocupara este cargo no governo de Víctor Yúshenko. Para a Economia foi eleito Oleg Mojnitski, advogado e membro do partido Swoboda. No ministério do Interior ficou Arsen Avakov, também do partido de Yulia Timoshenko.

Yanukóvich, em algum lugar do leste, apareceu em um vídeo dizendo que ali estava ocorrendo um “golpe de Estado” e o comparou à “tomada do poder pelos nazis na Alemanha de trinta”. Mas essas bravatas não assustaram ninguém. Seu próprio partido havia rompido com ele e agora está sendo procurado por “assassinato em massa de civis”.

Rapidamente, a oposição tentou usurpar a vitória da Maidán, fechar a crise revolucionária e controlar o poder. Yulia Timoshenko, ex-primeira ministra e conhecida líder pró-ocidental, foi liberada (estava presa por “traição” após ter acertado com a Rússia preços de gás altamente desfavoráveis à Ucrânia em 2009) e fez um discurso na praça elogiando os “heróis” da Maidán e anunciando sua candidatura para as próximas eleições, buscando capitalizar a vitória popular. 

Apesar de Timoshenko despertar expectativas em um setor de massas, existe muita desconfiança nele. A questão é que como Yanukóvich, Timoshenko e os demais personagens  são parte da oligarquia corrupta do país –um punhado de multimilionários que oscilam e estão dispostos a vender-se ao melhor preço, seja em euros ou em rublos.

Ao mesmo tempo, tanto a Casa Branca como os líderes europeus ofereceram apoio político e financeiro ao novo governo. Catherine Ashton, chefa da diplomacia européia, viajou a Ucrânia para oferecer ajuda econômica ao país. Essa rapidez por parte dos EUA e da UE em dar créditos ao novo governo ucraniano, quando antes exigiam uma série de condicionamentos, tem a ver com a intenção desse bloco imperialista de aproveitar a ocasião para incorporar a Ucrânia à sua esfera de influência.

Ao mesmo tempo, é fundamental para o imperialismo que a situação se estabilize, algo improvável no curto prazo devido a ebulição política que persiste. Ainda existem centenas de manifestantes na praça Maidán e muitos grupos de auto-defensa continuam “montando guarda” em edifícios públicos e se negam a entregar as armas. “Agora, os policiais vêm até nós e nos dizem que passaram para o lado do povo e que temos de lhes entregar as armas, mas não vamos ser tão ingênuos”, disse um ativista[10].

Desmobilizar a praça e desarmar as milícias de auto-defensa é o que mais preocupa as auto-proclamadas novas autoridades. “Controlar os ativistas da Maidán e tirar deles as armas são nossas principais dores de cabeça”, confessa um funcionário do novo governo ao jornal El País[11].

A situação de colapso em que se encontra o Estado é patente. Gente tirando foto na mansão presidencial, nos carros blindados da avenida Kreschatik, grupos de auto-defesa armados cercando a Rada e os edifícios públicos. Em Lvov, por exemplo, os grupos de auto-defesa fizeram um ato público onde puseram de joelhos a mais de cem soldados da Berkut para pedir perdão pela repressão e prometer que “estarão sempre junto ao povo”[12].

As perspectivas

Na Ucrânia, o povo mobilizado não só derrotou o governo de Yanukovich, passando por cima de toda a oposição parlamentar e os representantes do imperialismo europeu e norte-americano, e do próprio Putin, como que teve o poder a seu alcance. Não o tomou e nem podia tomá-lo porque as demonstrações de heroísmo estiveram acompanhadas da terrível ausência de uma direção política revolucionária, cuja construção é a tarefa mais urgente que o movimento de massas tem pela frente.

O mais provável é que a oligarquia europeísta e de ultra-direita consiga “ocupar” o vazio de poder e “fechar” a crise mais imediata. É provável também que, pelo menos por um tempo, essas direções, e inclusive os grupos do “Setor de Direita” saiam fortalecidos, no marco de um movimento poderoso e valoroso, mas confuso política e ideologicamente.

A crise de direção revolucionária, porém, não anula a imponente vitória e a experiência realizada pelo povo mobilizado e os defensores da Maidán.

Abriu-se no país uma nova situação política, marcada por um “duplo poder” entre o auto-proclamado “novo governo” e o poder da praça Maidán, com suas comissões e seus grupos de  auto-defesa, mesmo que nelas hajam setores de ultra-direita, que puderam haver cumprido um papel de vanguarda nos enfrentamentos com a polícia mas continuam sendo apenas uma parte de um movimento popular muitíssimo mais amplo.

O “poder” da praça Maidán não está institucionalizado, mas existe, está latente e “expectante”. Pode ter falsas ilusões, mas não deu um “cheque em branco” a Timoshenko, Klitschko, Turchínov, Swoboda, e a nenhum dos representantes da oligarquia europeísta.

Os milhares de ativistas da praça sabem que foram esses personagens que, ainda estando fresco o sangue e quentes os corpos dos mártires da Maidán, fizeram um acordo de último momento com o assassino Yanukovich para salvá-lo da  bancarrota. É grande a desconfiança do povo na oposição parlamentar, parte da mesma oligarquia mafiosa, corrupta e venal de Yanukovich e o Partido das Regiões. Se os “tolera” é porque não vê outra alternativa.

Os fatos se sucedem a uma velocidade própria de um processo revolucionário. Mas é possível apontar perspectivas marcadas por uma profunda instabilidade política. O povo se sente vitorioso. Mediu suas forças com as do poder oligárquico e venceu. Sabe que foi sua luta a que destituiu o tirano, derrotou a polícia e literalmente a colocou para “pedir perdão” ao povo por ter assassinados vários lutadores e lutadoras. Sabe que foi sua luta que obrigou os oligarcas a dissolver as Berkut. O mesmo povo que tirou fotos nos tanques, sentou-se no trono presidencial e fez um passeio pela luxuosa mansão de Yanukovich.

O “poder” da Maidán se expressa também na “necessidade” das auto-proclamadas “novas autoridades” de submeter a conformação do novo gabinete a uma “assembléia popular” em plena praça.

No mesmo momento em que escrevia estas linhas, foi convocada uma “veche” (assembléia) para que os manifestantes aprovem ou não os candidatos a ministros. O Kolo (círculo) de Maidán, que agrupa várias organizações sociais, em uma assembléia anterior definiu alguns “requisitos” para os postulantes a ministros, a saber: não figurar entre as cem pessoas mais ricas do país; não haver ocupado cargos no Executivo desde o início de 2010, quando Yanukovich assumiu o poder; ter um mínimo de sete anos de experiência em suas respectivas áreas e não haver estado envolvido em violações dos direitos humanos ou casos de corrupção[13].

Os critérios são eminentemente “democráticos”, sem nenhum caráter operário e socialista, mas evidenciam, por um lado, o poder da praça e, de outro, as tentativas de cooptar o movimento. Exatamente por isso, aceitaram a nomeação de Arseni Yatseniuk, braço direito da oligarca Timoshenko, no cargo de primeiro-ministro até as eleições de 25 de maio.

Por isso dizemos que não será fácil para a oligarquia corrupta, o imperialismo e Putin desmobilizar esse povo que aprendeu que “é possível vencer” e que aprendeu a se arriscar e dar a vida por uma causa que considerou justa. A experiência de luta e auto-organização desses três meses (auto-defesa, acampamentos auto-organizados, “serviços de urgência”, “postos médicos” na praça) e a memória dos mais de cem mortos não poderão ser esquecidos facilmente. Sobretudo porque o “novo governo” não tem condições de solucionar os graves problemas estruturais, econômicos e políticos que constituem a base objetiva do processo revolucionário. A crise social na Ucrânia, fruto do saque combinado entre a UE e a Rússia, agravada pela crise econômica mundial, atingiu o limite máximo desde novembro. Nem sequer se mostrará capaz de garantir as liberdades democráticas ou concretizar o necessário castigo para Yanukovich e os assassinos do povo.

O Estado “se precipita ao abismo” como expressou, sem  poupar dramaticidade, o próprio “presidente” interino. O ministro das Finanças ucraniano, Yuri Kolobov, declarou que o país necessitaria de quase 35 bilhões de dólares para recompor a economia, e a UE estaria disposta a “emprestar” 20 bilhões; o FMI anuncia estar disposto a discutir um “plano de resgate”, no estilo daqueles que foram aplicados na Grécia e na destroçada periferia européia. Mas isso seria apenas um paliativo para evitar a falência e a “suspensão de pagamentos” da dívida externa ucraniana. Por “baixo”, o desemprego e a miséria do povo permanecem.

A grande tarefa para o movimento agora é compreender que a queda de Yanukovich é só o começo, continuar mobilizados de forma independente e em oposição frontal a todos os partidos parlamentares e os neonazis do “Setor de Direita”, atrair para a luta, incorporando suas reivindicações, a classe operária organizada da Ucrânia, tendo uma visão da luta em âmbito nacional, que inclua a população do leste.

Nesse sentido, qualquer organização que se reivindique revolucionária e os ativistas mais conscientes devem se opor terminantemente a qualquer tentativa de separatismo por parte dos oligarcas da Criméia ou outras regiões do leste. O separatismo, no caso da revolução ucraniana, é sumamente reacionário e não passa de uma jogada para dividir o povo e afastar o proletariado industrial (mais numeroso e concentrado no leste) das mobilizações de Kiev e do oeste. Uma política conseqüente de secessão não está descartada, apesar de não parecer ser esta a orientação de Putin neste momento, golpeado pela derrota que lhe infligiram as massas em Kiev.

É necessário centralizar os organismos democráticos da classe, os movimentos populares, as comissões e as assembléias da praça em um Congresso nacional que defina um programa de governo a favor dos interesses do povo explorado e que garanta o respeito às minorias e, sobretudo, a independência total da Ucrânia. Para isso, se impõe a expropriação de toda a oligarquia e a consequente nacionalização das riquezas do país a serviço do povo, repudiando todo pacto de submissão tanto à UE como à Rússia opressora.

Em suma, a tarefa central no momento é enfrentar as medidas e o plano de desvio do chamado “novo governo” da oligarquia europeísta e representantes da ultra-direita, que conta com o apoio dos bandidos imperialistas da UE e EUA, e contrapor a esse plano reacionário um programa que aponte para uma saída operária e socialista para a crise da Ucrânia, concretizado na luta por um governo da classe trabalhadora e do povo pobre.

Tradução: Cecília Toledo

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