24 de janeiro de 2014

O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO DEVE SABER SOBRE A REPRESSÃO?

As “Ediciones Marxismo Vivo” publicam a obra clássica de Victor Serge sobre a atividade clandestina dos aparatos de repressão do Estado

As Ediciones Marxismo Vivo acabam de publicar em espanhol a obra clássica de Victor Serge a respeito da repressão. Os ensaios reunidos neste livro são o resultado de pesquisas feitas nos arquivos da Okhrana, a temível polícia política do
czarismo, um gigantesco aparato de repressão construído ao longo de 50 anos de combate contra as sucessivas gerações de revolucionários russos. Estes arquivos caíram em poder dos bolcheviques após a vitória da Revolução Russa. Além de estudá-los, Victor Serge possuía ainda, como todos os militantes de sua geração, conhecimentos práticos decorrentes de longos anos de prisão, deportação e exílio. O valor desse trabalho não foi, até hoje, superado.

A obra vem acompanhada de uma detalhada apresentação de Martín Hernández, que atualiza o tema à luz de sua experiência e dos ensinamentos extraídos da luta contra os golpes militares e as ditaduras que se abateram sobre o Cone Sul da América Latina nas décadas de 60 e 70. Atual dirigente da LIT-QI, Martín Hernández foi um dos jovens militantes que assumiu a direção do partido argentino (PST) quando Moreno e sua equipe mais próxima foram exilados, durante os anos da repressão desencadeada após o golpe contrarrevolucionário do general Videla, ocorrido em 1976. Tendo sido um dos responsáveis por passar toda a organização para a clandestinidade e dirigir a luta de vida ou morte do partido contra a ditadura, Martín Hernández nos oferece nesta apresentação as conclusões fundamentais de sua experiência de luta clandestina. O episódio ocorrido no interior do “serviço de inteligência” da base área da Província de Buenos Aires, relatado na apresentação, nos mostra uma dessas conclusões: não devemos, em hipótese alguma, subestimar o inimigo. Mas superestimá-lo é um erro igualmente grave. Entre um extremo e outro, saber equilibrar as decisões, com ousadia e coragem, pode nos ajudar a encontrar a alternativa correta entre a vida e a morte.

O acirramento da luta de classes em todo o mundo, com o recrudescimento dos combates entre revolução e contrarrevolução na Síria e no Egito, as lutas cada vez mais intensas dos trabalhadores europeus contra os planos de austeridade, as mobilizações dos povos latino-americanos contra o saque de seus recursos naturais e os planos de miséria, além do explosivo despertar do movimento de massas em países como Turquia e Brasil, colocam na ordem do dia a necessidade de preparação consciente de todos os revolucionários para enfrentar a repressão.

A nova geração de militantes brasileiros, que despertou para a vida política no final da década de 1990 ou em meados dos anos 2000, tem a obrigação urgente de estudar esse tema e de se preparar, prevenindo desde já as consequências trágicas de um combate às cegas. O Golpe Militar de 1964 completará, no final de março, seu aniversário de 50 anos. Meio século se passou. A ditadura foi derrubada, conseguimos a anistia de vários de nossos combatentes, as Comissões da Verdade têm obtido avanços importantes no terreno da informação e da recuperação da memória histórica, mas não devemos nos esquecer de que o aparato de repressão da ditadura permanece intacto. Todos os seus agentes, civis ou militares, estão em liberdade. Nenhum foi punido. Estão soltos, nas ruas, nas altas esferas do governo, no comando das polícias e das Forças Armadas, na direção dos principais meios de comunicação, na direção de grandes empresas nacionais e multinacionais.

Por outro lado, todo avanço da revolução produz uma reação correspondente no campo da contrarrevolução. À medida que cresce a força e a disposição de luta do movimento de massas, o inimigo prepara as suas armas. O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas brasileiras acaba de publicar um manual de combate contra manifestantes e organizações revolucionárias, denominado “Garantia da Lei e da Ordem”. Neste documento, são definidas as “Forças Oponentes” e as “Principais Ameaças” a serem enfrentadas pelos aparatos da repressão. Entre as “principais ameaças”, aparecem, singelamente: bloqueio de vias públicas de circulação; distúrbios urbanos; invasão de propriedades e instalações rurais ou urbanas, públicas ou privadas; paralisação de atividades produtivas; paralisação de serviços críticos ou essenciais à população ou a setores produtivos do País; e sabotagem nos locais de grandes eventos. Com exceção do termo “sabotagem”, usado aqui para criminalizar as possíveis manifestações em torno dos estádios (que certamente ocorrerão durante a Copa do Mundo), todas as “ameaças” descritas acima são os métodos tradicionais de luta do proletariado brasileiro: paralisação de rodovias, ocupação de prédios públicos, protestos e greves. Como se vê, o inimigo está preparado para o confronto. Não deveria ser um dever de todo revolucionário se preparar igualmente?


A obra que as Edições Marxismo Vivo acaba de publicar fornece um guia essencial para os primeiros passos dessa batalha: compreender, não de um ponto de vista meramente técnico (mesmo porque a superioridade técnica do inimigo é inevitável), e sim sociológico, marxista, o mecanismo fundamental das atividades clandestinas dos aparatos de repressão do Estado. Este trabalho, se encarado seriamente, nos permitirá, nos próximos anos, assegurar a vida de milhares de militantes e dar a necessária continuidade ao trabalho revolucionário, mesmo diante da mais severa repressão.

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