29 de outubro de 2013

Inglaterra: A Degeneração da Moral Revolucionária

A Crise do Machismo no SWP
                  por Robert Noonan

...O companheiro é mais importante que a vida de cada um. No partido, o coletivo é tudo, oposto à idéia típica do capitalismo, do individualismo, do egoísmo.” LIT-QI


Na segunda-feira, 14 de outubro de 2013, uma militante socialista publicou no website internationalsocialistnetwork.org [1] um relato anônimo sobre a experiência dela com a ‘Comissão de Disputa’ (D.C), depois de acusar um membro de seu próprio partido (SWP – Socialist Workers Party) de estupro.

Segundo ela, o estupro aconteceu em novembro de 2012. A militante ficou bastante constrangida e só decidiu levar para a D.C. em janeiro 2013, após conversar com camaradas, onde uma delas mostrou preocupação devido o comportamento recorrente do acusado. As companheiras ajudaram ela a perceber o que realmente havia acontecido: ela havia sido estuprada.

Ao receber a acusação, a D.C. suspendeu o acusado e começou o ‘processo de investigação’. Mas desde o começo a D.C. falou de forma grosseira com a companheira vítima de estupro, dificultando as coisas e acusando ela de quebrar regras de confidencialidade (por falar com camaradas antes de comunicar a D.C.). Quando chegou o momento da entrevista, os membros da D.C perguntaram coisas ridículas, tais como: “Qual o efeito do álcool e das drogas sobre você naquela noite?” e também sobre o seu estado emocional naquela noite. Ao final de uma entrevista longa e estressante, eles (os membros da D.C) a incentivaram a parar o processo por que não tinha como ter certeza sobre o que havia acontecido e continuar com o processo tornaria as coisas mais difíceis para ela.

Por esse motivo a militante, vítima de estupro, chegou a conclusão que não valia a pena continuar. Depois, ela descobriu que na ocasião da entrevista com o acusado, ele havia recebido uma cópia do testemunho dela, além do direito a um testemunho (de uma pessoa que não era militante do SWP) sobre sua moral (character witness)*. Ela não teve esse mesmo direito.

Segundo a direção do SWP, ela parou o processo por vontade própria, mas isso não é verdade. A direção do partido optou por defender um militante homem e deixar impune a opressão de uma militante mulher. O mais grave é que essa não é a primeira vez.

A crise de janeiro

Em janeiro desse ano, o SWP entrou em uma crise profunda. Uma militante do partido acusou um dos membros do Comitê Central (Martin Smith) de tê-la estuprado. A D.C. investigou o caso durante quatro dias e chegou à conclusão de que não havia provas suficientes contra o acusado. Enquanto isso, outra militante do partido também acusou o mesmo dirigente de tê-la molestado sexualmente, desta vez por meio de assédio sexual.

Também durante essa investigação, eles perguntaram sobre intoxicação, estado emocional e, além disso, sobre a historia sexual dela com outros militantes do partido.

Isso gerou uma crise que resultou em reportagens pela mídia nacional e internacional e o afastamento de mais de 50% dos militantes.

É surpreendente e ao mesmo tempo lamentável. Após tantas criticas e tantas baixas, o partido não mudou em nada seu procedimento. É inacreditável.

A luta de classe na Inglaterra

A história da classe trabalhadora na Inglaterra começa na segunda metade do século passado, com a invenção da máquina a vapor e das máquinas destinadas a trabalhar o algodão. Sabe-se que estas invenções desencadearam uma revolução industrial que simultaneamente transformou a sociedade em seu conjunto e cuja importância só agora se começa a reconhecer na história do mundo” [2]

A luta de classe inglesa tem uma grande história, com muitas lutas e muitas vitórias que influenciam na luta de classe internacionalmente. Nas grandes greves das décadas 60 e 70 até a greve dos mineiros (1984-1985), a classe trabalhadora, ambos os sexos, teve muitos ganhos e fez o sistema capitalista tremer. Além disso, tivemos vitórias nas lutas sociais, vitórias como o direito ao aborto e a criminalização do estupro marital.

O Trotskismo sempre esteve na linha de frente nessas lutas. Ainda hoje o trotskismo tem um peso grande na luta da classe trabalhadora. Por isso, esses tristes acontecimentos no SWP tiveram um impacto muito grande. Sendo o maior partido trotskista na Europa, e uma das maiores influências na luta de classes britânica, não traiu somente seu partido, mas também toda a luta da classe trabalhadora inglesa.

Moral Revolucionária
Partimos da visão de Moreno, que nossa moral é uma moral para uma luta implacável, para derrotar a um inimigo não menos implacável, os exploradores e o imperialismo. Por isso, a obrigação moral número um de cada militante, o dever moral mais sagrado, subordinando a isso a própria vida, é fortificar o partido, a vida partidária e o desenvolvimento da organização (...)
Nosso dever de militante para com o partido exige fazer tudo que possa ajudar a desenvolver cada camarada, cada militante, seja no sentido físico, seja no sentido moral, do nível intelectual, pois isso fortalece o partido e nosso objetivo final, a destruição do capitalismo e a construção do socialismo mundial e do comunismo. (...)” [3]
No partido, se dá uma relação distinta entre indivíduo e coletivo: o indivíduo está subordinado ao projeto coletivo, ao programa revolucionário do partido, e esse projeto exige o fortalecimento das relações de camaradagem e lealdade. Nossa moral se baseia na vida do companheiro ser mais importante que a nossa.
Um Partido Revolucionário sempre poderá vir a enfrentar desvios morais. O machismo na sociedade está crescendo cada vez mais e o aumento da violência contra a mulher mostra isso. Estatísticas mostram que no Brasil a cada 12 segundos uma mulher é estuprada.[4] Essa degeneração pode vir a afetar qualquer organização, já que os membros das organizações são parte dessa sociedade, porém, como as organizações respondem a esses desvios, mostra qual é a moral que defende.

O Partido tem que lutar por uma moral revolucionária, mais disciplinada e profunda que qualquer outra na sociedade capitalista. Os militantes devem ter total confiança em seus camaradas de luta e qualquer divergência disso deve ser tratada com absoluta importância pelo partido. A violência contra a mulher é uma absoluta quebra dessa moral e tem que ser combatida vigorosamente pelo partido, desde a direção.

Na sociedade capitalista, a mulher é considerada inferior. Elas recebem salários mais baixos, tem carga horária maior, sofrem abuso sexual, tem responsabilidade de cuidar da família e são tratadas apenas como objeto sexual, etc. O preconceito contra a mulher é constante e faz parte da ideologia dominante do próprio sistema capitalista. O machismo faz parte da manutenção deste sistema.

No partido revolucionário a moral deve ser diferente. Tem que ser um lugar onde a mulher é respeitada, tratada com igualdade e livre para se desenvolver como nunca seria possível fora do partido.

Se uma militante mulher acusa uma pessoa de estupro em uma organização revolucionária, é um dever levar a investigação até o fim, assegurando todo apoio e solidariedade a companheira. Se a palavra da mulher não tem valor nesta sociedade, no partido deve ser valorizada.

Mas no SWP, não é assim.

Como a direção respondeu?

Nós revolucionários acreditamos que devemos sempre dar um voto de confiança à mulher. Isso não significa eliminar a investigação, mas simplesmente agir de forma contrária à moral burguesa, para quem a palavra da mulher não tem importância. Mas nos dois casos, o SWP não deu esse voto de confiança e tudo seguiu como se fosse um partido burguês. A D.C. estava preocupada em provar que o estupro não havia acontecido e que a mulher estava mentindo. Seguiu com ‘investigações’ superficiais com o objetivo de silenciar as militantes e manter a ‘estabilidade’ do partido (e sua direção).

Mais que isso, nesses casos os dois acusados além de não serem expulsos, não tiveram seu desenvolvimento enquanto militantes prejudicados. Martin Smith se afastou do partido por pressão nacional em julho (6 meses depois da polêmica) e recentemente foi aprovado para fazer doutorado em Liverpool Hope University onde o coordenador é um dos dirigentes nacionais do SWP (Michael Lavelatte). O acusado do 2° caso recentemente foi ‘promovido’ para a Comissão Regional.

No dia 7 de outubro, Charlie Kimber e Alex Callinicos (os principais dirigentes do SWP) escreveram um artigo na revista ‘International Socialism’, chamado ‘The Politics of the SWP Crisis’[5] (As políticas por traz da crise do SWP).

“…O Comitê Central respondeu a denúncia com a transferência imediata para a D.C. com a esperança que uma investigação com procedimentos rigorosos e disciplina partidária geraria um resultado aceitável. Nos engamos ao acreditar que o processo seria respeitado inquestionavelmente (pela base). Depois de uma investigação séria, a D.C. concluiu que o estupro não aconteceu e que o assédio sexual não foi comprovado, e recomendou não aplicar ação disciplinar contra o membro envolvido… A discussão sobre o caso foi cercada por uma névoa de fofocas, insinuações, distorções e simples mentiras, tudo perpetuado na internet e na mídia, além da vontade chocante das outras organizações de esquerda de pensar, sem conhecer os fatos, o pior sobre o SWP.”

Aqui, eles tentaram esconder da base o problema. Eles não aceitam nenhuma critica, defendem ainda o método e a decisão do D.C., defendem que a D.C. era composta por membros do C.C. e colocam a culpa da crise nas fofocas, mentiras e uma esquerda supostamente vingativa. O artigo foi escrito para apenas defender o partido e sua direção. Isso mostra que não refletiram sobre os problemas derivados do machismo dentro do partido, dessa forma o machismo continuará sendo um problema e a direção não irá combatê-lo.

Degeneração da Moral Revolucionária

Isso mostra uma total degeneração da moral revolucionária. No Programa de Transição, Trotsky diz que “em uma sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a moral da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos operários, a confiança em suas forças e seu espírito de sacrifício na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram o medo e a docilidade dos oprimidos diante dos opressores”. O que ocorreu no SWP foi justamente o contrário: aplicaram-se métodos que minaram a confiança das militantes e inspiraram o medo diante dos opressores.

É importante notar que durante tudo isso, a Internacional que eles fazem parte (IST – Tendência Socialista Internacional) se manteve calada. Isso, na verdade, é por que a 'internacional' não é verdadeiramente uma internacional, mas apenas uma extensão da própria direção.

O Partido

A direção de um partido revolucionário representa o partido como um todo. Os/as militantes de base têm que confiar em sua direção e ter espaço para levar críticas e problemas. Mas no SWP os militantes não têm. Em resposta a essa ultima revelação, no dia 14 de outubro, um grupo de militantes publicou uma nota no sribd.com[6], em nome de mais de 50 militantes, em apoio a camarada vítima da opressão machista, criticando a direção e dizendo que não tem mais confiança na D.C., nem política e nem moralmente. No final de 2012, um grupo de militantes foi expulso [7] antes da conferência nacional, acusados de desenvolver uma ‘fração’, por estarem preocupados com os métodos da direção e sua ‘manipulação’ no caso contra Martin Smith.

Está claro que os militantes já não conseguem levar as criticas frente a sua direção e, por isso, acabam levando-a para fora do partido.

A direção reivindica o centralismo-democrático, mas na prática utiliza centralismo-burocrático. Protegendo a direção das críticas e mantendo suas posições no partido. Essa falta de autocrítica e costume de autodefesa, ao longo dos anos, gerou uma crise muito profunda ao ponto do estupro de mulheres deixar de ser combatido.

E assim, o SWP, que reivindica ser um partido revolucionário trotskista, mostra que é um partido machista e com uma moral contra-revolucionária.

Um partido que não pode enfrentar o machismo entre seus militantes não poderá dirigir a classe trabalhadora para assumir o poder.

*character witness: testemunho de uma pessoa sobre as características éticas e morais de alguém.

Para estudar mais sobre a moral revolucionária:

[2] Engels, Friedrich,  A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra , Introdução
[4] Opinião Socialista: Numero 469 p8\9
[5] http://www.isj.org.uk/index.php4?id=915
[7] http://socialistunity.com/statement-of-the-swps-democratic-opposition/





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