25 de agosto de 2013

Jonathan Franzen: liberdade ou sujeição ao público e ao mercado?



Por Márcio Palmares

A busca pelo reconhecimento e glorificação é um mal que aflige praticamente todas as mentes brilhantes. Muitos gênios não se contentam em permanecer relativamente anônimos após concluir obras que sabem ser eternas. Não querem a eternidade: querem o reconhecimento fugaz em vida.

São comuns os exemplos de artistas que, ressentidos por não terem recebido o reconhecimento por sua obra máxima, decidem oferecer ao público uma reedição vulgar do grande esforço de suas vidas, uma versão menor, mais fácil de ser assimilada pelo público menos exigente, e, então, sem qualquer surpresa, tal como haviam imaginado, recebem uma acolhida estrondosa e são transformados em “artistas do século”.

Foi o que aconteceu com Jonathan Franzen. Este sujeito escreveu um romance extraordinário, uma obra prima da literatura contemporânea, mas recebeu “apenas” um dos maiores prêmios literários dos Estados Unidos, o National Book Award, de 2001. Não recebeu o Pulitzer ou (até agora) um Nobel de Literatura, não foi aclamado pelas massas (embora a repercussão do livro tenha sido considerável). Não ergueram um pedestal suficientemente alto para ele. E nosso pobre Franzen sentiu-se traído pela humanidade.

De fato, seu romance “As Correções” merecia uma acolhida maior. Com este trabalho, o romance norte-americano readquiriu uma profundidade singular. “As Correções” retratam toda a grandeza e toda a miséria do gênero humano, além de nos fornecer um panorama sobre final da década de 1990 e início dos anos 2000. Nas páginas deste livro, o leitor encontrará um retrato tragicômico do processo de restauração do capitalismo no Leste Europeu, os dilemas do individualismo e seu conflito permanente com a infelicidade, a desumanização crescente, o sofrimento mental dos doentes e dos sadios, a depressão e as drogas usadas para combatê-la. Todos os mitos da família norte-americana bem sucedida e bem estruturada, que é exatamente o mito da felicidade sob o capitalismo, são sistematicamente destruídos por um realismo arrasador. Personagens densas, heroicas e monumentais, como Alfred e Denise, risíveis e trágicas como Chip e Enid, condenadas e desumanizadas pelo capitalismo, como Gary, aparecem relacionadas numa trama complexa, cujo final surpreendente é o reencontro do homem (ou de parte deles) com sua humanidade perdida.

Não é um livro fácil de ler. Leva-se algum tempo para ultrapassar a fase preliminar, de preparação para os grandes acontecimentos, em que as personagens são construídas. Esta é, aliás, umas das particularidades de construção mais interessantes: cada personagem tem o seu capítulo, que figura como um livro à parte dentro do romance. Somente no final o leitor vê todos eles em ação, juntos, exibindo toda sua grandeza e pequenez.

Outro aspecto notável de construção foi a maneira sutil como Franzen descreveu o advento da internet. Em certo momento crítico dos acontecimentos, em que as personagens necessitam desesperadamente comunicar-se, o leitor se vê diante de uma solução tão rápida quanto fria e inútil: um e-mail aparece entre as páginas do livro! Em outro momento, o leitor toma outro susto ao se deparar com um esboço de “demonstração geométrica” que a mente criativa de Alfred preparara para explicar uma verdade matemática para o desinteresse de seu filho mais velho...

Não é um livro comum. É um livro excepcional para bons leitores, e isto não poderia produzir um resultado satisfatório para o artista em busca de aclamação, pois no mundo em que vivemos a arte aclamada não é, em geral, a arte verdadeira, e sim aquela que pode ser mais facilmente vendida pela grande indústria do entretenimento.

Decepcionado e mortificado por não terem reconhecido o trabalho de toda a sua vida, Franzen passou dez anos preparando uma espécie de versão fraca de “As Correções”. Apareceu então “Liberdade”, e os críticos da imprensa norte-americana, certamente influenciados pelas exigências dos representantes do mercado editorial, rapidamente o transformaram no “romance do século”.

Liberdade?

“Liberdade” não é exatamente um livro ruim. O leitor desavisado pode achar que é um bom livro. Fácil de ler, divertido em algumas passagens, com ingredientes comuns, “sexo, drogas e rock’n’roll”, um triângulo amoroso, um retrato de passagem sobre a guerra contra o Iraque, a destruição do meio-ambiente e preocupações ecológicas, em suma, nada de mais.

Para quem leu, contudo, “As Correções”, este livro figura como uma espécie de imitação mais ou menos grosseira. O enredo está razoavelmente bem arranjado, pois segue a receita usada em “As Correções”: o livro retrata a história de uma típica família norte-americana num cenário contemporâneo, mostrando ao leitor um panorama da história atual e sujeitando as personagens aos conflitos de sua época. O tema desenvolvido aqui novamente é o da busca pela individualidade, ou “liberdade”, num mundo totalmente regido pelas leis cegas da sociedade capitalista.

O grande problema, porém, é que toda a força criativa, toda a autenticidade, todo o brilho das personagens, toda a força moral dos grandes conflitos foram empregadas no trabalho anterior, e por isso as personagens de “Liberdade” não têm alma, aparecem como marionetes frívolas nas mãos do escritor, o que rapidamente entristece e decepciona o leitor que conheceu o verdadeiro gênio criativo de Franzen. É uma pena.

Velho Franzen, ouça o que dizemos nós, seus amigos: seu lugar entre os grandes nomes da literatura mundial já está assegurado por Alfred, Enid, Chip, Gary e Denise. Não se preocupe em nos oferecer mais nada, exceto quando se tratar de algo que tenha nascido do fundo de seu coração. Não busque mais o reconhecimento. Não se deixe aprisionar pelas pressões do público e do mercado editorial. Faça o que lhe der na telha, e então a verdadeira liberdade, a arte verdadeira, reaparecerá.

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