26 de agosto de 2013

35 anos das prisões da Convergência Socialista


Há 35 anos, o regime militar prendia em São Paulo 27 militantes, a maioria da jovem direção da organização Convergência Socialista. Estas prisões foram parte da “Operação Lótus”, montada pela repressão para exterminar com as organizações de esquerda

Américo Gomes,
da Comissão de presos e perseguidos
políticos da ex-Convergência Socialista
Em meados da década de 1970 a situação política no Brasil começa a se alterar e o povo a se mobilizar contra a ditadura militar. Nas eleições de novembro de 1974 o voto na oposição evidenciava o grau de repúdio da população. O ditador Geisel reage com o "Pacote de Abril" visando manter o controle do poder em suas mãos. Mas vem a crise do petróleo e a subida dos juros internacionais da dívida externa, desdobrando-se em aumento da inflação e da dívida interna. Era o fim do “milagre econômico”, baseado na superexploração dos trabalhadores e no endividamento externo. Com a crise econômica veio a crise política. Surgem as grandes mobilizações de maio de 1977. A classe trabalhadora vai à luta golpeia o regime militar, obriga-o a acelerar a abertura. A nova situação política leva a queda da ditadura em 1984.
Em meio a esse processo, a Liga Operária é organizada no Brasil por quatro companheiros que voltavam do exílio no Chile. Fogem do Chile após o golpe de Pinochet, em 1973, seguindo para a Argentina onde encontram militantes da Fração Bolchevique/Liga Internacional dos Trabalhadores, dirigida por Nahuel Moreno.
De volta ao Brasil, percebem que, diante da nova situação política, o regime militar seria obrigado a acelerar a política de “abertura” o que abriria espaço para uma atuação semilegal e de independência de classe. Observando o fenômeno de crescimento dos partidos socialistas, particularmente, o PS português, durante a Revolução dos Cravos, resolvem lançar o Movimento de Convergência Socialista visando fundar um Partido Socialista amplo e legal, formado por trabalhadores e independente dos patrões.
Em janeiro de 1978, o jornal “Versus” convocou uma reunião para discutir o lançamento de um movimento pró-Partido Socialista. A reunião contou com cerca de 300 pessoas e aprovou a proposta de dar ao movimento o nome de Convergência Socialista. Em março, a Convergência Socialista (CS) ganhou notícias na “Folha de S. Paulo”, no “Estado de S. Paulo” e no “Jornal do Brasil” por realizar a primeira reunião pública de socialistas, em plena ditadura, no Colégio Equipe de São Paulo. Compareceram cerca de 800 pessoas. Essa reunião foi seguida por outras no Rio de Janeiro, Campinas e no ABC. Sendo também fundado o movimento em Pernambuco e Rio Grande do Sul. O “Versus”, passa a ser vendido por todos os militantes, além da sua tiragem habitual em bancas. O jornal chega a distribuir 30 mil exemplares.
Classe operária volta à cena política
Um mês e meio depois, a classe operária dá uma demonstração de força. Pela primeira vez, desde 1968, o 1° de maio é comemorado com atos independentes em Osasco (SP) e Santo André (SP). Alguns dias depois, a Scania de São Bernardo do Campo (SP) entra em greve. Na sequência, dezenas de fábricas metalúrgicas da região do ABC paulista param, numa onda que se estenderia para São Paulo nos meses de junho e julho. Abria-se a mais importante onda de greves da história do país.
A Convergência, que já vinha intervindo no ABC, e particularmente em Santo André, através dos metalúrgicos resolve publicar seu primeiro jornal legal em apoio aos grevistas. Um número especial do jornal “Versus” tem como título “A palavra da Convergência Socialista” e tiragem de 10 mil exemplares.
Ao mesmo tempo, começa a organizar sua participação nas eleições para governadores, deputados e senadores de 1978. A política era apoiar candidatos operários e socialistas, que só poderiam concorrer pelo MDB, único partido de oposição que podia existir legalmente na ditadura. Para apoiar esses candidatos a CS exigia que concordassem com um programa e que defendessem publicamente a proposta de construir um partido socialista.
Dando sequencia a esta política, a CS convoca uma Convenção Nacional do movimento para 20 de agosto de 1978 com o objetivo de discutir um programa e votar a proposta de lançar um Partido Socialista legal. A convenção se realizou em um Colégio na cidade de São Paulo, com a presença de 1.200 pessoas.
No entanto, em junho os órgãos de repressão prenderam militantes da CS em Brasília prenunciando a repressão que viria. Mas isso não foi identificada pela direção da organização. Consequentemente, dois dias depois da convenção o regime militar resolveu dar um basta e impedir a legalização do PS, prendendo e processando a direção.
Foram presos 25 militantes, a maioria do Comitê Executivo do clandestino PST/LO. Entre eles está Nahuel Moreno. Sua prisão significava uma ameaça direta à sua vida, já que Moreno, naquela época exilado na Colômbia, podia ser deportado para a Argentina, o que significaria a morte nas garras da ditadura genocida que massacrou mais de 40 mil pessoas. Para salvá-lo os presos realizaram uma greve de fome que duraram 14 dias. Também foi realizada uma enorme campanha nacional e internacional por sua libertação. A campanha surte efeito e Moreno é expulso para a Colômbia.
Mas 10 dirigentes da CS permanecem presos até dezembro e são indiciados na Lei de Segurança Nacional e depois anistiados.
Proposta do Partido dos Trabalhadores
A proposta do PS tinha sido uma hipótese de trabalho. O fundamental era a estratégia de construir um partido operário com independência de classe. Mas era necessário elaborar um novo projeto de independência de classe. Nahuel Moreno, observando o surgimento da corrente sindicalista do processo de greves, propõe que a CS lance a ideia de formar um partido dos trabalhadores.
Mas em janeiro de 1979, a CS lança a proposta de construir um PT. Ela foi transformada numa moção e levada imediatamente ao congresso do Sindicato de Metalúrgicos de Santo André por José Maria de Alemeida e aprovada. Em seguida, ela é apresentada pelo próprio Zé Maria, delegado do sindicato de Santo André, ao congresso dos metalúrgicos do estado de São Paulo, realizado em Lins. O congresso a aprovou em a proposta.
Em março, o governo de João Batista Figueiredo assume sob o signo de novas e mais fortes greves dos metalúrgicos do ABC e do interior paulista. A CS intervém ativamente e desempenha um papel de destaque em Santo André, São Caetano, Jundiaí e São José dos Campos. Os órgãos de repressão assinalam que a CS é a organização mais ativa a intervir nas greves, e ela é atacada diretamente pelo ministro do Trabalho, Murilo Macedo.
A ousadia sempre foi a principal marca da Convergência Socialista na luta contra a ditadura. Apesar dos golpes da repressão, a ditadura não conseguiu nem destruir nem desestruturar a organização.

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