24 de junho de 2013

A Primavera está chegando a Curitiba!

Por Márcio Palmares


Vitória da luta pela redução da tarifa do transporte nas principais capitais do país mostra o caminho: mobilizar pra vencer! Em Curitiba, conseguimos superar a inércia. Mas a luta está apenas começando!


“Toda revolução começa com uma faísca”, diz o cartaz de um manifestante. É uma frase correta, bela e trágica ao mesmo tempo. A revolução que começou na Tunísia, e que se estendeu por quase todo o Norte da África até chegar ao Oriente Médio — chamada de “Primavera Árabe” pela grande imprensa — foi deflagrada após a morte de um feirante que ateou fogo ao próprio corpo em protesto contra a exploração e os abusos que sofria nas mãos de policiais. A explosão de revoltas populares que tomou a Turquia há algumas semanas começou em repúdio à repressão policial desencadeada contra protestos aparentemente inofensivos. Em ambos os casos, as reivindicações iniciais do movimento deram lugar a uma luta global contra o regime político, contra a ordem estabelecida, contra o governo e as mazelas do sistema capitalista.

Uma coisa parecida está acontecendo no Brasil. Uma onda de manifestações populares varre o país contra a desigualdade social, as injustiças, a falta de investimentos em saúde e educação, contra a corrupção, contra o governo e os crimes da Copa, contra a selvagem repressão policial lançada sobre os manifestantes pelos governantes, sejam de partidos que estão no governo, como PT e PMDB, seja por parte de governantes da oposição de direita (PSDB e DEM). Como essas lutas começaram? Com um detonador, com uma faísca: a luta contra o aumento das tarifas do transporte coletivo.

Isso significa que vai começar uma revolução no Brasil?

Não necessariamente. Protestos e revoltas populares, por maiores que sejam, não são a mesma coisa que revoluções. Mas as revoluções são caracterizadas principalmente pela intervenção direta da classe trabalhadora e dos jovens no curso dos acontecimentos políticos, ou, como Trotsky dizia, pela intervenção direta das massas “na arena onde se decide o seu próprio destino”. Quando os trabalhadores e jovens participam ativamente dos acontecimentos, com protestos, ocupações, greves, paralisações, etc., abre-se diante deles um horizonte até então ignorado, oculto pela realidade da exploração e da alienação promovidas pelo capitalismo: “Nossa luta é capaz de mudar a realidade, não precisamos nos sujeitar às humilhações, à exploração, às injustiças. Temos uma força social imensa!”

Se essa descoberta repentina se transformará numa revolução, depende de inúmeros fatores. O fato mais importante, por enquanto, é que essa consciência atingiu dezenas de milhares de pessoas em nosso país, e se transformou em ação, uma ação política que é transformadora, revolucionária em sua essência, mesmo que os próprios manifestantes não tenham, no momento, consciência disso.

15 mil em Curitiba: primeira batalha vencida!

A forte mobilização realizada em Curitiba nesta segunda-feira, 17 de junho, foi a maior em muitos e muitos anos. Não ocorria nada parecido desde o início dos anos 2000. A simples realização da manifestação já é uma vitória, pois despertou milhares de pessoas e, com elas, a maior parte da sociedade: os trabalhadores, que viram a dimensão e a força do protesto e que agora entrarão na luta.

Por que passamos tanto tempo no “inverno”, imobilizados, sem reagir? A explicação é complexa e há vários fatores envolvidos. Apresentaremos aqui apenas a principal razão política e ideológica para este fato: desde que o PT chegou à presidência, em 2003, houve uma desmobilização geral da sociedade, e principalmente a desmobilização dos trabalhadores, incluindo aí a maior parte da juventude e do movimento estudantil.

De instrumentos de luta a instrumentos do governo!

Ao chegar ao poder, o PT transformou as organizações que haviam mobilizado e educado a classe trabalhadora no período anterior, como a CUT, a UNE e o próprio MST, em sustentáculos do governo e do Estado, em braços políticos do governo no interior dos movimentos sociais. Com isso, a classe trabalhadora brasileira, que se organiza principalmente em sindicatos, no movimento estudantil e no movimento popular, ficou amarrada na camisa de força da CUT, da UNE do MST, que passaram a defender o governo do PT, mesmo quando suas políticas atacam os trabalhadores em benefício dosempresários. A partir de então, as mobilizações de massas praticamente desapareceram do cenário político nacional.

Embora tenham ocorrido importantes lutas de resistência nos últimos dez anos, como a luta dos servidores públicos federais e de outras categorias contra a Reforma da Previdência de 2003, foram sempre lutas mais ou menos setoriais, com apenas parte da classe trabalhadora envolvida.

No Paraná, a cooptação e o engessamento dos movimentos sociais foi feita por Requião

Logo que Lula e Requião chegaram ao poder, em 2003, o governador recém-eleito massificou uma propaganda que dizia: “Agora é Silva, irmão!” Essa frase foi espalhada em todo o Estado, durante a campanha e depois dela. Finalidade? Transmitir a impressão (falsa) de que um governo de Frente Popular como o governo Lula representa os interesses dos trabalhadores, dos “Silva”. Dez anos depois, comprovamos na prática o que Marx dizia já em 1848: “O governo do Estado moderno não é nada mais do que um comitê responsável por gerir os negócios comuns da burguesia”. De fato, Lula governou para os bancos, para as multinacionais, para as empreiteiras e o agronegócio. Para os trabalhadores houve apenas uma discreta elevação do salário mínimo e políticas sociais compensatórias, que não revertem o quadro estrutural de pobreza e miséria. Basta olhar para a situação da saúde e da educação públicas para vermos que os trabalhadores nunca foram prioridade no governo do PT, apesar dos discursos.

Foi assim que a dupla Lula-Requião conseguiu acorrentar os trabalhadores também no Paraná, e as mobilizações simplesmente desapareceram. Um dos principais sindicatos do nosso Estado, a APP-Sindicato, dirigido com mãos de ferro pelo PT, que na era Lerner realizava manifestações com mais de 20 mil educadores nas ruas de Curitiba, cumpre hoje o triste papel de engessar completamente a categoria. Atualmente, um professor 20h no início de carreira recebe pouco mais de mil reais, menos do que dois salários mínimos. Ou seja, ganha um salário de miséria. E mesmo assim a APP-Sindicato, comandada pelo PT e pela CUT, ou seja, pelo governo, não faz uma greve há mais de dez anos!

Dez anos de esperanças frustradas e de corrupção colocam em cena novos atores sociais

Engessada pelo governo, pelo papel desmobilizador da CUT, da UNE e do MST, a classe trabalhadora ainda não saiu às ruas nesse despertar de manifestações que atravessam o país.

As ruas de Curitiba foram tomadas na noite desta segunda-feira principalmente por jovens de classe média, que atenderam à convocação pelo Facebook. É muito importante que os jovens, independentemente de sua condição social, participem das manifestações. Para que o movimento possa vencer, é preciso que a maior parte da sociedade seja convencida da justeza de suas reivindicações, e apoie o movimento. Também é preciso que uma parcela significativa da sociedade participe ativamente da luta, o que inclui naturalmente os estudantes.

Na luta pelo transporte público de qualidade, pelo passe-livre, pela redução imediata da tarifa, não estamos confrontando apenas a prefeitura comandada por Gustavo Fruet (PDT) e pelo PT. Também não se trata apenas de um enfrentamento contra o tucano Beto Richa. Trata-se principalmente de uma luta contra a “máfia do transporte coletivo”: as 6 famílias de milionários que detêm o controle sobre o sistema de transporte, e que extraem um lucro líquido de 100 milhões de reais por ano explorando os usuários. Prefeito, governador, vereadores e o poder público de modo geral são apenas os testa-de-ferro dessa elite de milionários, que detém o poder econômico, e, por extensão, também o poder político.

Para vencer essa batalha, precisamos da maioria da nossa classe. Precisamos dos trabalhadores e dos movimentos sociais, para que lutem ao lado dos estudantes e jovens, e que usem os seus métodos de luta: manifestações de massa, protestos, greves, paralisações, etc.

Uma juventude radicalizada, descrente (com razão) em relação ao sistema, mas vulnerável à ultra direita

A predominância da juventude de classe média na manifestação desta segunda-feira (17 de junho) foi um prato cheio para a ultradireita. Curitiba é a capital mais conservadora do país. O ato estava cheio de nacionalistas, integralistas e nazi-fascistas, todos eles escondidos atrás das bandeiras do Brasil, além de muitos membros de partidos políticos reacionários e de seitas políticas de direita.

Percebendo que o público possuía pouca experiência política, conseguiram controlar parte da manifestação e transformá-la num ritual nacionalista e num palco de críticas pela direita ao governo Dilma (PT), deixando ilesos o governador do Estado (PSDB) e o prefeito (PDT). Em vez de palavras de ordem pela redução imediata da tarifa, ou mesmo contra o governo, contra a sua política econômica neoliberal, contra as privatizações, contra os crimes da Copa, por mais investimento em saúde e educação, a ultradireita tinha o hino nacional na ponta da língua e se limitou a gritar genericamente “contra a corrupção”, além de atacar a presidente Dilma com um repertório variado de insultos machistas.

“Abaixa a bandeira!” A supressão da liberdade de expressão: o grito de guerra do nacionalismo, dos militares e da ultradireita

Do mesmo modo que usaram o público para seu ritual nacionalista, a direita usou essa nova geração de estudantes, que repudia com razão o sistema político, mas que não tem ideia do que tenha sido a ditadura militar, para confrontar e hostilizar os partidos políticos de esquerda presentes na manifestação, como PSTU, PSOL e PCB. Incitados pela ultradireita, esse jovens agrediram os militantes das organizações citadas, obrigando-os a recolher suas bandeiras. Fato curioso: nesta ação antidemocrática e tipicamente ditatorial, conseguiram o apoio dos “anarco-punks”, que em tese deveriam defender a liberdade de expressão.

Este fato é sintomático. Hoje, a ultradireita comparece às ruas escondida atrás das bandeiras do Brasil e do hino nacional. Seus ativistas, em geral “clandestinos” (policiais, militares, nazi-fascistas, nacionalistas, membros dos partidos da ultradireita), sobem nos ombros dos jovens de classe média e gritam contra a corrupção, contra os desmandos do governo. Mas eles pedem o impeachment do governo Dilma não porque discordem de sua política econômica, mas para colocar em seu lugar figuras como Bolsonaro e Marcos Feliciano, ou para instaurar uma ditadura militar e acabar de fato com todos os partidos políticos, mas principalmente e antes de tudo com os partidos socialistas.

Por isso, precisamos ter muita atenção daqui pra frente. A classe média que está empobrecendo em decorrência da crise e da péssima política econômica do governo, que privilegia os bancos e as multinacionais sacrificando a maioria da população, vê seu padrão de vida diminuir a cada dia e sai às ruas procurando desesperadamente uma alternativa política. Infelizmente a história nos mostra que este setor social sempre foi o caldo de cultura para a ascensão do fascismo. É justamente aí que a ultradireita recrutará seus quadros, jovens sem formação política ou ideológica, revoltados contra a corrupção, desejosos de corrigir os problemas do país com o uso da “força”. Para eles, a ultradireita fornecerá prontamente uma ideologia: o nacionalismo. E também os meios para alcançar fins nebulosos: no início, grupos paramilitares. Posteriormente, o Exército e a polícia. Eis o modo como surge o fascismo.

Amanhã vai ser maior! Apenas começamos!

Este alerta a respeito dos perigos que cercam o despertar do movimento de massas no Brasil serve para que todos os partidos políticos de esquerda, as organizações socialistas e mesmo aquelas que não são socialistas, mas reivindicam a democracia, a liberdade de expressão e os direitos civis, se unam para barrar o avanço da ultradireita.

As medidas óbvias para fazer isso são as seguintes: engrossar as manifestações com a classe trabalhadora e a juventude. É preciso que os sindicatos e os movimentos sociais se incorporem a essa luta, e tragam consigo a sua experiência, tradições e ensinamentos da luta contra a ditadura militar, sendo um dos principais o respeito à democracia e à liberdade de expressão. Todas as organizações políticas, todos os partidos, todos os movimentos devem expressar livremente suas ideias, com bandeiras, cartazes, faixas e panfletos. A supressão desse direito é um ataque grave contra o conjunto da classe trabalhadora, embora, neste momento, possa ser dirigido contra algumas organizações políticas específicas.

Outra medida é a união das organizações políticas da classe trabalhadora, independentemente de suas convicções, para que atuem em conjunto nas manifestações e que garantam sua autodefesa, através de equipes de segurança capazes de conter o assédio da ultradireita e, no caso de Curitiba, dos seus infelizes aliados “anarco-punks”.

Hoje, quinta-feira, teremos a segunda batalha!

Nesta quinta-feira, 20 de junho, haverá mais mobilizações em todo o país. Em Curitiba, a concentração começará novamente às 18h, na Boca Maldita.

Os sindicatos, organizações e partidos políticos, centrais sindicais, o movimento estudantil e popular farão uma concentração específica às 17h, na Praça Zacarias, para garantir uma participação coesa das organização dos trabalhadores no ato. Em seguida, às 18h iremos todos para a Boca Maldita.

É bom lembrar que há uma Frente de Luta pelo Transporte, responsável pela organização dos atos, que inclui várias organizações políticas.

As principais reivindicações do movimento são:

1) Redução imediata da tarifa!

(Revogação do aumento e congelamento em R$ 2,60, até segunda ordem, que virá das ruas);

2) Abaixo a repressão! Contra a criminalização dos movimentos sociais!

3) Passe-livre para todos os estudantes!

4) Abertura da caixa-preta das empresas e da URBS!

5) Contra os crimes de Estado da Copa!

Compareça! Traga suas bandeiras, cartazes, faixas, panfletos e megafone!

A vitória só será conquistada com muita luta e com a adesão da maioria da nossa classe, o que depende do respeito à democracia e à pluralidade de ideias!

Vamos virar o jogo a partir de agora!

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