1 de fevereiro de 2013

IMPRENSA OPERÁRIA X IMPRENSA BURGUESA

Não é de hoje que a General Motors (GM) vem enfrentando problemas econômicos. Desde o agravamento da crise econômica mundial em 2008, para acertar as contas tem jogado o problema sobre as costas dos trabalhadores: fechou fábricas no mundo todo, abriu concordata tendo sido salva pelo governo dos EUA, e no Brasil o que vemos são seguidos ataques aos direitos dos trabalhadores, flexibilização, demissões massivas, e ameaças.

Não bastasse isso, culpa os trabalhadores pela crise da empresa, como se em meio a maior crise econômica da história, os responsáveis pelos prejuízos fossem justamente aqueles que produzem a riqueza. Diante da greve na planta de São José dos Campos - SP do acirramento das lutas na cidade, o jornal O Estado de São Paulo saiu ao ataque dos operários em luta, do seu sindicato, da CSP-Conlutas, e do PSTU. Num jogo retórico tenta transferir a responsabilidade da recessão da empresa para a mobilização combativa.

Abaixo reproduzimos o texto do folhetim burguês que se presta a um triste e anti-democrático papel. Reproduzimos também a nossa resposta a eles. Os dois textos são um exemplo claro das disputas ideológicas da luta de classes hoje. Os lados são evidentes, quem está com os patrões e quem está do lado dos trabalhadores.

O preço do radicalismo - EDITORIAL O ESTADÃO
Jornal O Estado de São Paulo - 24/01


Dominados pelo radicalismo, que os impede de entender as transformações pelas quais passa o mundo, especialmente o mundo do trabalho, dirigentes sindicais dos metalúrgicos de São José dos Campos inviabilizam investimentos na expansão do parque industrial da região, reduzem as oportunidades de emprego, prejudicam os trabalhadores que dizem defender e, cada vez mais distantes do realismo que marca a atuação de outros sindicalistas, decidiram prejudicar a população, com a interrupção do tráfego na Rodovia Presidente Dutra, que liga as duas maiores cidades do País. Agindo de modo insensato, afastam-se cada vez mais dos trabalhadores e se arriscam a perder o direito de se proclamarem seus representantes.

Talvez estimulados pela impunidade com que o fizeram pela primeira vez, em agosto do ano passado, e com as mesmas alegações, esses dirigentes mobilizaram trabalhadores da empresa General Motors (GM), que estavam em greve, para um protesto na Via Dutra, que constituiu na interdição total das duas pistas da rodovia na manhã de terça-feira, o que resultou em congestionamento de até 8 quilômetros no sentido São Paulo-Rio.

Como no ato realizado no ano passado, os sindicalistas protestavam contra a possível demissão de até 1,5 mil trabalhadores da GM. Enfrentando concorrência cada vez mais acirrada, como ocorre com outras empresas industriais instaladas no País, a montadora de veículos vem procurando reduzir seus custos operacionais, aumentar sua produtividade e, assim, defender seus mercados e, se possível, ampliá-los. Isso implica decisões cruciais em diferentes áreas, como a dos investimentos e a das relações trabalhistas.

Mudanças como a adoção de jornadas diferenciadas, revisão dos padrões de remuneração, definição de novos benefícios e responsabilidades, entre outras, fazem parte dos temas que precisam ser discutidos com serenidade por trabalhadores e empresas, para que se preservem as fábricas sem impor perdas aos empregados. No caso de São José dos Campos, no entanto, discussões como essas, embora inevitáveis no processo de transformações por que passa a indústria em todo o mundo, não avançam, por causa do radicalismo da direção sindical, dominada por representantes do PSTU e seu braço sindical, a Conlutas.

Resistente a qualquer iniciativa da empresa na área trabalhista, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos está forçando a GM a reduzir paulatinamente suas atividades na cidade, deslocando-a para outras unidades, como as de São Caetano do Sul (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS). Dados recentes indicam que, de R$ 5,5 bilhões investidos pela empresa em quatro anos, apenas R$ 800 milhões foram destinados à unidade de São José dos Campos.

Na fábrica do Vale do Paraíba estão empregados 7,5 mil trabalhadores. A interrupção da produção de modelos que ali eram fabricados e a escolha de outros locais para a montagem dos novos modelos estão reduzindo a importância de São José dos Campos na estrutura da GM brasileira, com reflexos no quadro de pessoal.

Desde agosto, 800 empregados foram colocados no regime de lay-off, isto é, permanecem em casa enquanto o ritmo de atividade da fábrica não se normalizar. Fazem parte do grupo de 1,5 mil trabalhadores que, segundo o sindicato, podem ser demitidos. Foi para protestar contra essa possível demissão que, depois de paralisar a produção, o sindicato levou os trabalhadores à via Dutra, para perturbar a vida da população.

Houve tempo em que sindicalistas do ABC agiam de modo semelhante e levaram as empresas a reduzir seus programas de investimentos na região e até a estudar a possibilidade de fechamento de fábricas. Felizmente para essas regiões e para os metalúrgicos, novos dirigentes sindicais souberam compreender as mudanças na economia mundial, que exigem cada vez mais eficiência e menores custos, e se adaptaram a elas, com benefícios para empregados, empregadores e para a economia local. Não é, lamentavelmente, o que se vê em São José dos Campos.



O preço do peleguismo
Em nota, Zé Maria, Presidente Nacional do PSTU, responde aos ataques de editorial do jornal O Estado de S. Paulo ao partido. O editorial responsabiliza o "radicalismo" de sindicalistas pela ameaça de 1500 demissões na GM de São José dos Campos (SP)

Em destaque, editorial publicado nesse dia 24 de janeiro
• O jornal O Estado de S. Paulo publicou um editorial nesse dia 24 de janeiro no qual ataca, de forma vergonhosa, os metalúrgicos que lutam neste momento em São José dos Campos (SP) contra as 1500 demissões que a GM ameaça realizar. O editoral "O preço do radicalismo" ataca ainda a direção do sindicato e o PSTU que, segundo eles, seriam os verdadeiros responsáveis pela dispensa massiva que assombra a cidade.

Atuando como verdadeira assessoria de imprensa da GM, o jornal justifica as demissões e a série de "flexibilização" de direitos trabalhistas que a montadora vem impondo às suas plantas, lamentando o fato de que o mesmo não tivesse sido possível fazer em São José dos Campos devido à mentalidade "retrógada" dos sindicalistas. Para o jornal, tais medidas visam "reduzir os custos operacionais, aumentar sua produtividade, e assim, defender seus mercados e, se possível ampliá-los". Um eufemismo para defender cada vez mais os lucros das empresas.

O editorial não informa, porém, as conseqüências desta flexibilização para a vida dos trabalhadores. E, muito menos, a série de benesses e benefícios recebidos pela montadora do poder público. A isenção do IPI às montadoras vai representar uma renúncia fiscal de R$ 2 bilhões só nessa primeira metade de 2013, segundo o próprio governo. Amparada pelo governo, as empresas, e em especial a GM, vem tendo recorde de vendas e de produção. E, quando se viram ameaçadas pelos automóveis importados da Ásia, as montadoras correram ao governo que garantiu de pronto a elevação do imposto a esses produtos. Mesmo que a própria GM importe boa parte dos veículos que vende aqui.

O Estadão também não diz que os custos de produção dos veículos, incluindo aí o custo com mão-de-obra, no Brasil é um dos mais baixos do mundo, bem menor que a média mundial. Enquanto que, em outros países, o custo total de produção de um veículo corresponde a 79% do valor que é vendido, no Brasil não passa de 58%.A margem de lucro, por sua vez, é de 10%, nada menos que o dobro da média mundial. Ou seja, é uma enorme falácia o argumento utilizado pela montadora, e reverberado pelo jornal, de que o custo da mão-de-obra estaria inviabilizando o funcionamento da montadora. Isso não acontece em São José nem em nenhum lugar do mundo em que a GM atua.

Acontece que o governo parece funcionar apenas para um lado. Quando a GM bate à porta do poder público reclamando da crise, não ouve do governo: "reduza os custos e aumente a produtividade para se viabilizar". Não, ela consegue isenção fiscal, sem qualquer contrapartida. Quando vêm os produtos asiáticos mais baratos, consegue medidas protecionistas para garantir reserva de mercado. Agora, quando a empresa decide colocar na rua 1500 pais de família, dizendo que vai transferir sua produção para outro país, aí então se torna uma "necessidade" para baixar custos e enfrentar a concorrência. Aí então o governo se diz “impossibilitado” de intervir a favor dos trabalhadores.

O que o Estadão chama de "radicalismo" é a postura de não aceitar esse absurdo. O governo não mede esforços para atender as reivindicações da montadora norte-americana e não pode simplesmente ignorar o apelo de 1500 operários em defesa de seus empregos.

Outra falácia, esta também muito difundida, dá conta de que um sindicalismo mais "moderno", um eufemismo para chapa-branca, impediria as demissões e que as empresas fossem embora e fechassem fábricas. Como bem mostra o próprio exemplo do editorial, a região do ABC. Para o jornal, os sindicalistas que agiam de forma parecida aos de São José dos Campos foram os responsáveis pela redução dos investimentos na região. Mas, agora, comemora o jornal, "os novos dirigentes souberam compreender as mudanças na economia mundial". O editorialista só se esquece de dizer que, neste exato momento, as montadoras do ABC demitem, abrem PDV's e colocam centenas de operários em lay-offs, como na Mercedes.

Um sindicalismo combativo, como defende a CSP-Conlutas, não é garantia de empregos ou de novos investimentos. É tão somente a garantia de que os trabalhadores que estão sendo atacados tenham um instrumento para dar vazão à sua luta e contem com a possibilidade de resistir. Algo que no ABC não ocorre, pois esse é o “preço do peleguismo” defendido pelo Estadão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui a sua opinião!

Marcadores