24 de abril de 2012

PT, o que você virou?


Avanilson Araújo[1][2]
Ainda no final dos anos 80, mais exatamente em 89, tive contato mais próximo com o PT na campanha emocionante de Lula contra Collor. Naquele momento uma galera acreditava que iríamos tomar o poder e construir o socialismo.
Naquela época ainda era comum que todo mundo que militava em algum lugar, seja no sindicato, na Igreja, no bairro, fosse depois para o PT. Lembro que sai da Pastoral da Juventude para ir militar no PT e atuar no bairro que morava em Minas Gerais.
Depois o PT foi se transformando cada vez mais rápido e passando a fazer coisas que a turma mais à esquerda se perguntava, onde vai dar isto? No final de 1998, depois da eleição, sai do PT e fui militar como advogado do MST aqui Paraná.
De lá pra cá a coisa desandou de vez. Mas tudo isto tem explicação. As coisas não aconteceram por maldade das pessoas. O PT que foi talvez o principal partido operário da história recente passou a ser o principal partido da ordem burguesa.
Na apresentação de seu último livro Valério Arcary[3] analisando a trajetória do PT e de sua corrente majoritária, o Lulismo, nos dá um quadro do que se tornou o principal partido da classe trabalhadora:
“(...) O Lula que chegou à presidência não era mais o catalizador das grandes mobilizações de massas dos anos 1978/1984. Não era um incendiário de mudanças, mas um bombeiro. (...) O PT não chegou ao poder como consequência do ascenso operário e popular que desafiou Figueiredo, mas em 2003, portanto, dezoito anos depois do fim da ditadura.”
O PT que chegou ao poder foi o partido que justificava todos os meios para um único fim: manter a governança do estado burguês se aliando com toda horda de corruptos e políticos tradicionais de direita, como Sarney, Collor, Renan Calheiros, além de contar com os aplausos dos grandes grupos empresariais.
Recentemente no Paraná o giro à direita do PT ficou mais evidente. Em 2010 o partido decidiu apoiar, a contragosto da base social que ainda alimentava alguma esperança de mudança e transformação, o latifundiário Osmar Dias (PDT), numa campanha esquizofrênica que nem a base de direita de Osmar Dias aceitou e nem a base mais à esquerda que vota no PT engoliu.

Chapa pró-Fruet vence em Curitiba
Chapa pró-aliança com Fruet vence em Curitiba
Agora a história se repete. O PT de Curitiba decidiu recentemente apoiar Gustavo Fruet que, numa manobra eleitoral, filiou-se ao PDT para integrar a base aliada do governo Dilma.
Todos sabem que Gustavo Fruet foi uma das principais figuras do PSDB nacionalmente. Até ontem atacava publicamente o próprio governo Dilma e foi um opositor intransigente do governo Lula. Mas, para a turma que manda no PT isto não tem problema.
De fato, para um partido de sustentação da ordem este tipo de postura não tem qualquer problema. Mas existe ainda nas fileiras do PT muita gente honesta e que acreditava que era possível mudar as coisas, melhorar a vida das pessoas de verdade, fazer uma reforma agrária e urbana decente. Para esses lutadores talvez esteja na hora de rever os conceitos como diria a propaganda.
A esquerda socialista começa a se preparar para intervir nas eleições, acreditando que esse é apenas mais um espaço, que o principal é seguir organizado o povo, seja no sindicato, seja nas ocupações de terra no campo e na cidade, seja nos grêmios estudantis.
Para aqueles que não perderam a esperança na bandeira vermelha do socialismo a vida vai continuar porque a história é muito maior do que a capitulação da direção do PT.

[1] Presidente estadual PSTU-PR, advogado de movimentos sociais. Mestre em Ciências Sociais pela UEL.
[2] Militou no PT no início dos anos 90.
[3] Arcary, Valerio. Um reformismo quase sem reforma – Uma crítica marxista do governo Lula em defesa da revolução brasileira. Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2011. P. 14.

3 comentários:

  1. Avanilson,respeito sua posição,mas o que devemos entender é que a política é a arte do possível,desse modo é impossível fazer política instituicional sem fazer alianças ou correlação de forças.O Pt dos anos 80 é o Pstu de hoje,bem intencionado,mas que nunca chegará ao poder com essa postura unilateral. Creio que seja possível fazer algo ideológico na luta institucional,como fez o Pt,com o maior program de distibuição renda na história desse país. Devemos reconhecer,independente de partidarismos,que o Pt foi o governo que mais beneficiou a classe trabalhadora,é obvio que essa concessão tem um preço,esse é o dilema da via institucional,ou você segue as regras do jogo acreditando em um ideal,ou parte pra luta armada,o que não dá é pra ficar nessa luta ingênua e radical do Pstu,que não faz nada de concreto pela população trabalhadora,pelo contrário nas campanhas políticas do Pstu vcs gastam todas as energias pra bater no Pt.Como petista, também discordo de algumas alianças,com algumas oligarquias sujas da política brasileira,mas é bom que se entenda que o PT possui várias correntes e não pode ser representado por um grupo político ou diretório regional,concordo que é preciso recuperar a identidade do partido que ainda existe em muitos companheiros,que não se debandaram pra luta vazia e pra crítica apenas pela crítica como os colegas bem intencionados,porém ingênuos do Pstu.

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  2. Pitacando.....concordo, em gênero, número e grau; em especial com a assertiva "luta ingênua e radical". No mundo do real, a concretude urge!!

    Sei lá....chega do quanto pior pior, pior!
    Coisas asim....

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  3. O PSTU não é um partido de correntes e de tendências permanentes, portanto não é o PT do início. Não confunda postura unilateral com classismo. E o PSTU não é uma organização que defende as reformas dentro do capital como estratégia final, é um partido de ação e de mobilização constante da classe TRABALHADORA... Os petistas ainda não fizeram esse tipo de experiência mais profunda com outro modelo de organização e sob um programa revolucionário. Mal poderão compreender o que significa militar dessa forma. É dessa maneira que atuamos, e dentro dessa perspectiva, sim, fizemos muito. Mas em matéria de políticas assistencialistas, não, nunca fizemos... porque não lutamos para dar esmolas pra classe trabalhadora, lutamos para construir uma organização onde ela se unifique sob as mesmas bandeiras, sob um mesmo programa e se organize para lutar e superar o sistema de exploração capitalista cujo o PT se adaptou completamente. Nós também achamos que é impossível se fazer política sem unidade, sem frentes, por conta da correlação de forças, mas nós não abandonamos o classismo, não achamos que fazendo unidade com os setores burgueses e seus partidos vamos dar condições para os trabalhadores lutarem até as ultimas consequências pelos interesses da classe, nós também não achamos que recebendo dinheiro do governo ou das empresas privadas podemos dar educar a classe na autonomia política. Tudo isso não foi a gente que inventou. Esses são princípios históricos fundamentais da luta de classes... sim somos radicais! Porque ser radical significa ir a raiz do problema! por tudo isso, parabéns pelo texto! E nós não estamos criticando, estamos DENUNCIANDO! Porque não é possível ver a nossa classe sendo enganada do jeito que vem sendo.. MINHAS SINCERAS SAUDAÇÕES A TODOS E A TODAS QUE NÃO MANCHARAM AS BANDEIRAS VERMELHAS. O POVO SABERÁ QUEM ESTÁ DO SEU LADO...

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