28 de março de 2012

TEMPO É DINHEIRO


O Preço do Amanhã, filme de Andrew Niccol 
Por Rosi Leny

Em um futuro não muito distante, 2041, as pessoas deixam de envelhecer aos 25 anos e têm somente mais um ano de vida pela frente. Elas nascem com uma espécie de relógio no braço, que marca quanto tempo de vida ainda possuem. Através dele, recebem o tempo e pagam com ele todas as coisas. O tempo é a moeda de troca. Para viverem mais é preciso conseguir mais tempo trabalhando, emprestando dos bancos ou explorando outros trabalhadores.

No filme que teve estréia no Brasil em novembro de 2011, de Andrew Niccol, diretor de Gattaca - Experiência Genética, há operários nas fábricas trabalhando e recebendo em troca o tempo suficiente para voltarem ao trabalho no dia seguinte. Quando não conseguem atingir a cota de produção, a morte é súbita. O preço da passagem sobe e quem não tem o tempo necessário para pagá-la vai andando ou correndo, se tiver tempo suficiente para chegar onde deseja.

A ficção se assemelha à realidade quando em situações futurísticas o pano de fundo continua sendo a diferença entre as classes sociais. A temática da necessidade de superação das sociedades é sempre recorrente no cinema. Impossível não lembrar de Alphaville, de Godard, 1965, quando nos deparamos com a personagem Sylvia (Amanda Seyfried), o cabelo, a maquiagem, as roupas lembram Natasha (Anna Karina).

Em O preço do amanhã a descoberta de que muita gente precisa morrer para que alguns sejam imortais é um dos momentos mais importantes do filme. Quando Will Salas (Justin Timberlake), operário de fábrica que vive na periferia, encontra Henry Hamilton (Matt Bomer) muita coisa se revela sobre a sociedade desconhecida por Will. “A verdade é que há mais do que tempo suficiente para todos, há pessoas com milhões de anos enquanto a maioria conta os dias” diz Henry, para o espanto de Will.

Trocando a palavra “tempo” por “dinheiro” as frases descrevem exatamente o que é a sociedade capitalista. Enquanto alguns têm milhões em dinheiro, outros morrem de forme e para alguns terem milhões é preciso explorar e controlar a maioria.

Uma corrida contra o tempo.

A percepção do tempo se torna diferente na medida em que os personagens ficam menos apáticos à questão do tempo e tomam consciência da sociedade em que vivem. Quanto mais se dão conta do mundo regrado pelo tempo, de si mesmos e das relações com os outros, mais o tempo ganha novos sentidos.

O que as pessoas fazem quando conseguem o tempo, roubado e distribuído por Will e Sylvia, que assaltam como Bonnie e Clyde e distribuem como Robin Hood? As relações se tornam mais humanas, os afetos se demonstram, não é mais preciso correr contra o tempo, é possível aproveitá-lo, há tempo para um abraço.

Nesta sociedade fictícia todos vivem em função do tempo, todos querem tempo, têm pouco tempo, estão muito preocupados com o tempo, mas Will e Sylvia percebem que o tempo que parece pouco é grande quando se está vivendo não em função de mais tempo, mas em função da superação da lógica do tempo. O viver em função do fim da estrutura social em que alguns têm milhões à custa da exploração e morte de outros faz com que cada tempo, minuto, hora, seja importante.

O que fazer com o tempo então? Mudar as regras do jogo? Conseguirão mudar o mundo? Sozinhos, provavelmente não, mas podem dar aos outros o que há de mais importante, a esperança de ser possível e necessário mudá-lo.

E se alguém ainda não o assistiu: não perca tempo! Ainda há tempo!


FICHA TÉCNICA:
Diretor: Andrew Niccol
Elenco: Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Olivia Wilde, Cillian Murphy, Alex Pettyfer, Johnny Galecki, Matt Bomer, Michael William Freeman, Jesse Lee Soffer, Aaron Perilo
Produção: Mark Abraham, Eric Newman, Andrew Niccol
Roteiro: Andrew Niccol
Fotografia: Roger Deakins
Trilha Sonora: Craig Armstrong
Duração: 112 min.
Ano: 2011
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção Científica
Cor: Colorido
Distribuidora: 20th Century Fox
Estúdio: New Regency Pictures / Strike Entertainment / Regency Enterprises
Classificação: 12 anos



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